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Jornal

O que pode um casamento (gay)?

|performance | Artista e pesquisador Eduardo Bruno partilha com os leitores do Vida&Arte sua performance-casamento celebrada na última semana

21/01/2019 01:30:00
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Fortaleza, segunda-feira, 14 de janeiro de 2019, cartório do Mucuripe, 16h30min. Um trem da alegria, de um lado uma faixa escrita "recém-casados Eduardo e Waldírio" e do outro a bandeira LGBTQI%2b . Assim dava-se a conclusão do projeto artístico "7 performances de casamento". Eu e Waldírio Castro, enquanto noivos e performers, encerrávamos a experiência estético-política de transformar a vivência de nosso casamento em um manifesto "artivista". Se a vida sexual e amorosa dos LGBTQI , cada vez mais, é posta a ocupar os espaços privados - "tudo bem ser gay, mas não precisa se beijar em público" -, fizemos de nossa vivência do casamento um compartilhamento estético-político-interventivo com/na Cidade.

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Na semana anterior ao casamento, ocupamos Fortaleza e as mídias sociais com ações performativas acerca da LGBTQI afetividade no espaço público e que, corpóreo-simbolicamente, nos atravessavam enquanto casal gay. Lambes com as cores do arco-íris e frases de pesquisadores que estudam as questões de gênero e sexualidade foram colados nas paredes do Bairro de Fátima. No Centro, durante duas horas, com uma placa escrita "Procura-se candidatos para ir a um casamento gay", entrevistamos pessoas com o objetivo de selecionar dois convidados desconhecidos para ir ao nosso casamento. No Montese, local onde residimos, entregamos 24 "convites de casamentos" durante a madrugada nas caixas de correio, constando, no interior do envelope, dados acerca da violência física e simbólica que os LBGTQI sofrem diariamente no Brasil. Fizemos uma web-leitura performativa dos livros "Problemas de Gênero" (de Judith Butler) e "Manifesto Contrassexual" (de Paul B. Preciado) com câmeras espalhadas nos cômodos de nossa casa e ligadas online em nossas redes sociais por uma hora. Panfletamos, na esquina da avenida Aguanambi com a avenida Domingos Olímpio, 100 exemplares da resolução Nº175-2013, na qual é dada a liberação para a realização do casamento homoafetivo. Derivamos pela noite da Cidade com a bandeira gay pintada no rosto e, ao final, fizemos uma gif-arte nos beijando. Por último, afixamos uma faixa escrita "Insurreição Gayzista. Não morreremos calados" na passarela que dá acesso ao Aeroporto Pinto Martins.

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Produzir estas ações foi nosso exercício de esgarçar o compartilhamento social de nossa relação/casamento e, assim, materializar autobiograficamente a resistência a LGBTQI fobia. Empregar no espaço público, para além das ações do cotidiano (andar de mãos dadas e beijar-se quando se sente o desejo de beijar e etc.), foi nosso modo de megafonizar poético-politicamente o confronto com a máquina mortífera que vem tomando de assalto o Brasil. Estamos em disputa simbólica contra a LGBTQI fobia e se eles combinaram de nos apagar, nós combinamos de cada vez mais gritarmos mais alto em um misto de cólera e alegria. 


Entre Peppa Pig, Homem-Aranha, Fofão, Linn da Quebrada, Lady Gaga, Gloria Groove, "I will survive" e um microfone aberto para gritos de guerra - como "Eu beijo homem, beijo mulher, tenho o direito de beijar quem eu quiser" e " Eu não sou otário, não adianta que eu não volto pro armário" -, o trem da alegria andava pela Cidade com um grupo de LGBTQI fantasiados e imersos na cólera e na alegria da resistência em corpo vivo. Centro, Benfica, Beira-Mar, Praia de Iracema, Meireles, Aldeota, Edson Queiroz e Bairro de Fatima foram rasgados pelo som das músicas e das vozes. Na calçada da Praia de Iracema, teve brinde com os passantes, o buquê (um livro de Butler) foi jogado e a tão tradicional valsa foi dançada. Marcamos simbolicamente a cidade.


Com isto, se retornamos ao título dado a esse texto e nos perguntarmos: O que pode um casamento (gay)? Eu arriscaria dizer que ele pode muito, ele pode tanta coisa, que é por isso que o temem tanto. Parafraseando Butler, eu também diria "As pessoas que estão raivosas não querem que o mundo mude, mas elas precisam aceitar que o mundo já mudou, independente do que elas acham"!


Eduardo Bruno é artista-pesquisador, mestre em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo

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