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Jornal

O móvel que eu fiz

| COMPORTAMENTO | Marcenarias abrem suas portas e viram espaços de criatividade, experimentação e aprendizado para aqueles que buscam produzir seu próprio mobiliário

15/01/2019 01:30:00
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A possibilidade de fabricar o próprio móvel, algo original e único, tem incentivado diversas pessoas a procurarem locais que ensinem a prática da marcenaria. O Movimento Maker, uma variante do 'do it yourself', vem ganhando espaço e adeptos à modalidade do fazer você mesmo. O manuseio das ferramentas, o acabamento e montagem da peça viram aulas práticas e, ao final, o aluno pode levar para casa um móvel assinado por si mesmo.

 

Com essa vontade de criar algo original e dispostos a fabricar os próprios móveis e mobílias, um grupo de amigos começou a procurar maneiras de aprender a arte da marcenaria. Na época, a oferta de cursos ou de pessoas que ensinassem era pouca, o que fez irem em busca por tutoriais na Internet. 

 

Após produzir um bom número de itens para si mesmos e para amigos próximos, os jovens se uniram para criar um espaço onde pudessem repassar os conhecimentos de como trabalhar com a madeira.

 

Foi assim que, em meados de 2016, surgiu a Oficina Faiz, que atualmente oferece sete cursos indo do básico da marcenaria à xilogravura. "Notamos essa necessidade de pessoas querendo fazer suas próprias mobílias", conta Hiago Teixeira, artesão e um dos sócios da Oficina Faiz, pioneiro no mercado de cursos voltado à marcenaria. As aulas apresentam os fundamentos básicos dessa arte, além do manuseio das variedades da madeira e das ferramentas necessárias para a criação da peça.

 

"Os produtos que vemos nas lojas não têm uma qualidade e originalidade tão grande quanto um feito de maneira artesanal", afirma Hiago, ao contar umas das razões pelas quais as pessoas procuram o curso.

 

Raquel Araújo, designer de moda, iniciou na marcenaria ainda de maneira tímida, fazendo pequenos artesanatos para uso próprio e itens de decoração para casa. Na vontade de especializar seu negócio de produções artesanais, 

Raquel fez o curso de Oficina de Marcenaria na Faiz.

 

"Eu já mexia com madeira de forma mais artesanal, fiz o curso para aprofundar meus conhecimentos, principalmente, nas ferramentas", explica a artesã que, com o aprendizado, expandiu os seus trabalhos da Junte Woodart, negócio onde vende produtos personalizados em madeira feitos por ela.

 

Não foi diferente para Hélio Parente, que procurou a Faiz para adquirir conhecimentos básicos de marcenaria e eventualmente fabricar seus próprios móveis. O jovem conta que sempre teve interesse em marcenaria e em produzir mobílias e, com o curso, foi mais fácil realizar esse desejo. "Os professores nos ajudam e ensinam de uma forma que não há dificuldade em fazer o projeto proposto", diz Hélio ressaltando que o curso despertou sua criatividade na fabricação de móveis diferenciados.

 

Oficina Faiz

 

Onde: Rua José Vilar, 943 - Meireles

Instagram: @oficinafaiz

Marcenaria Selvagem

Onde: Rua Almirante Jaceguai, 249 - Praia de Iracema

Instagram: @marcenariaselvagem

Oficina Arte Sã

Onde: Av. da Universidade, 2464 - Benfica

Instagram: @oficina.artesamarcenaria

 

 

Pegada selvagem

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Com foco na experiência, a Marcenaria Selvagem inaugura sexta, 18, com uma aula aberta em sua sede na Praia de Iracema. Lá, o espaço é direcionado para a formação e fruição de conhecimento com uma boa pegada "faça você mesmo". À frente estão o artista Emanuel Oliveira e o arquiteto e designer Emiliano Cavalcante. Os dois são sócios na marcenaria.

 

"Além dos cursos, a partir de produções nossas e de parceiros nacionais e locais, a Selvagem também oferece um modelo de residência para o público que gostaria de executar seus próprios projetos, mas não dispõe de maquinário especializado, de espaço para trabalhar, ou ainda de lugar adequado para armazenamento", dá detalhes sobre a oferta, segundo Emanuel, pioneira na cidade.

 

O público na Selvagem são pessoas interessadas em um hobby, estudantes e profissionais de Design e Arquitetura, artistas, mas também instituições de ensino e centros culturais. "Normalmente essas pessoas já vêm acompanhando esse movimento nacional, com espaços semelhantes e têm curiosidade em saber mais sobre máquinas e ferramentas, ou ainda são pessoas que têm espaço limitado em casa, ou que precisam só de um empurrãozinho", incentiva um dos fundadores do espaço.

 

As primeiras rodadas dos cursos de marcenaria aconteceram em 2017. Passados dois anos, a programação volta intensa, começando com uma aula aberta sobre afiação de lâminas, na sexta, dia 18, à noite. A aula complementa o curso de Construção de Plaina, que acontece nos dias 19 e 20 (sábado e domingo) o dia todo, com o professor Thiago Endrigo, do projeto "Saber com as mãos". Para se arriscar neste ou nos demais estudos do portfólio "basta ter curiosidade e vontade", convida.

 

Depois da "Festa do Cupim", agendada para o dia 24, no local na Praia de Iracema, outra dica de um dos curadores da programação de cursos na Selvagem é o de "Banquinho Trinca" (30 de janeiro a 1º de fevereiro, à tarde) com os selvagens da casa e o "Poltrona Krat" (dia 2, manhã e tarde, e 3 de fevereiro pela manhã) com Amélia Aragão, da Clavo.

 

Essa procura pela marcenaria, segundo Emanuel Oliveira, é um reflexo do interesse cada vez mais em alta por artigos personalizados. "Algumas vezes os marceneiros não conseguem ou não têm tanta habilidade ou paciência para desenvolver projetos junto com o consumidor. Além disso, existe a facilidade de acesso à informação gerada pela Internet. Tem tutorial de quase tudo", atribui ele.

 

Na visão do empresário, empreendimentos com um espírito similar ao da Selvagem, que têm surgido pelo País, também ajudam a favorecer esse perfil. "É como se fosse um 'coworking' da madeira, em que você pode não se preocupar com o barulho, em ocupar a garagem da casa da tia ou em precisar comprar equipamentos relativamente caros. Isso, aliado a conversas com gente que está na mesma onda e com um suporte técnico, dá o arremate nessa história".

 

Olhar feminino

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Responsável por um dos cursos na Selvagem, Amélia Aragão, da Clavo Ateliê (@clavogram), contribui com o olhar feminino na mercenaria. Ela é arquiteta e urbanista, especialista em gerenciamento de projetos, que irá ensinar, em dois dias de aula, a fazer uma de suas habilidades em madeira. "A intenção é dar uma mudada na produção, é mostrar outras técnicas", refere-se à poltrona krat.

 

A professora universitária vê nas oficinas um momento como se fosse marcenaria de "apartamento". Não é preciso trabalhar na área para construir o seu próprio móvel. "Temos as ferramentas já prontas para serem usadas", facilita sobre o processo. Mas o cenário de conteúdo específico e em curto prazo disponível nem sempre foi assim. "Quando comecei não tinha esses cursos em Fortaleza, tanto é que fui para São Paulo, só depois que comecei a dar oficina", lembra-se.

 

Amélia começou como professora desse tipo de aula em outubro de 2017. De lá para cá, a paixão pelo ofício e a arte de ensiná-lo só tem aumentado. "Muitas mulheres têm começado a procurar, acredito que por elas verem outra mulher na frente isso se sentem encorajadas a participar. Elas notam que também têm capacidade de usar ferramentas, que a marcenaria não é algo só para homens", desmitifica o assunto.

 

A relação de Amélia com a marcenaria é uma história de avô para neta. "Meu avô tinha a marcenaria como hobby, a casa dele era toda feita por ele e pelo meu bisavô. Ele não era marceneiro, mas sabia fazer coisas de serralheria, alvenaria...", daí seu interesse no tipo de trabalho.

 

O fator artístico, na lente da especialista em gerenciamento de projetos, é uma das principais diferenças hoje em relação ao modo como os móveis eram feitos antigamente. "Era uma coisa bem artesanal, eram móveis de madeira maciça", detalha. Hoje, diz Amélia, já não se utiliza tanto nos móveis popularizados. A produção é mais prática, porém sem perder o seu charme. É o resultado de algo que acaba sendo único também.

 

Arte Sã

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Rômulo Sales criou a Oficina Arte Sã em 2016, mas só em 2018 começou a executar o negócio voltado à marcenaria em Fortaleza. O curso surgiu da vontade de compartilhar os conhecimentos que vinha adquirindo e por ele perceber que havia muitas pessoas, desde amigos e parentes, que demonstravam interesse quando ele comentava sobre o seu trabalho.

 

A missão entendida por Rômulo era de aproximar pessoas e ensiná-las algo que elas mesmas se sentissem entusiasmadas em fazer. O controle da ansiedade, por quem integra as oficinas, é outro fator que soma à Arte Sã. 

 

"Acredito que a marcenaria nos provoca sempre a aprendermos a controlar a ansiedade e ter mais paciência porque é isso que vai fazer toda diferença no decorrer do nosso aperfeiçoamento nessa arte tão delicada e cheia de possibilidades criativas", justifica a escolha do nome.

 

O propósito, segundo o idealizador, é gerar oportunidades para as pessoas que têm uma paixão pela marcenaria, é cheio de vontade em aprender, mas que andava sem saber por onde começar e por onde percorrer. "Algumas pessoas nunca tiveram contato com as ferramentas da marcenaria. Outras já tiveram algumas práticas. Mas os dois casos sempre são de pessoas que precisam de orientação técnica e de uma prática orientada", fala do curso de  Marcenaria Hobby.

 

Arte Sã também é um trocadilho com outra característica da prática artesanal de um marceneiro. Tem a ver com a prática artesã. Esse fazer manual alimenta a mente como também provoca a pensar sobre sustentabilidade. 

 

"Aqui na oficina sempre temos madeiras de reaproveitamento. Algumas peças são feitas exclusivamente com essas madeiras. Outras são com madeiras de reflorestamento que são as tábuas de pinus e as chapas de compensado", lista Rômulo.

 

Para o cabeça da Arte Sã, qualquer pessoa pode aprender a fazer e executar as suas ideias com madeira. "Alguns fazem aquele projeto para presentar. 

 

Normalmente, quando o projeto se torna presente, ele é destinado para o filho ou filha. E já tive casos diversos como uma sapateira, uma mesa para desenho técnico e o caso mais delicado e desafiador foi o de uma casinha para a filha brincar dentro dela", exemplifica sobre as possibilidades com os cursos, para iniciantes e praticantes.

Líllian Santos

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