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Jornal

Forte como o vento

|FESTIVAL| Selecionado para Mostra de Tiradentes, Espavento, curta produzido na Vila das Artes, discute resistência a partir de uma Fortaleza futurista e distópica

15/01/2019 01:30:00
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O tempo de Espavento escapa de qualquer identificação. É uma Fortaleza de qual futuro: aquele daqui a 10, 15 anos, ou o amanhã? O curta dirigido por Ana Francelino mostra um porvir indefinido para lembrar de necessidades do hoje: resistência, união. Produzido dentro da Escola de Audiovisual da Vila das Artes, o filme será exibido no final deste mês na seção Formação da 22ª Mostra de Tiradentes.

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A produção acompanha Enya (Mara Rachel Oliveira) numa Fortaleza em que a construção civil predadora causou uma doença não identificável que contamina seus habitantes. A protagonista se envolve com seus pares na luta contra as ações da principal empresa imobiliária da cidade. "O projeto surgiu da minha pesquisa de graduação em Comunicação Social, que proporcionou o estudo sobre cidade, questão urbana, especulação imobiliária e desigualdade social de Fortaleza", inicia Ana. Após levantamento de materiais bibliográficos e documentais, o roteiro foi escrito em parceria com a fotógrafa Clara Capelo. 

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Além disso, o curta também teve pesquisa de campo e ainda foi aprovado em um edital do Ministério da Cultura em 2017.

 

Estudante da 4ª turma do Curso de Realização Audiovisual da Vila, Ana teve parceria da escola, utilizando equipamentos e tendo acesso a laboratórios. "A presença de Espavento na mostra Formação de Tiradentes representa uma conquista e uma forma de cinema que resiste no Estado, produzido fora do sistema industrial e privilegiado, que se desenvolve como ferramenta teórica de estudo, pesquisa, registro e manifestação de resistência", celebra.

 

O modo de fazer do curta reflete as questões e inquietações da obra. "O crescimento da Capital é comandado pelas classes de poder econômico que representam a demanda do mercado de imóveis e orientam a produção do espaço urbano na Cidade. Dessa forma, é perceptível a desvalorização de determinados territórios baseada em aspectos econômicos, raciais, históricos e sócio-espaciais", estabelece. "Vivências pessoais por ser do interior, pobre, lésbica e não-binária me fizeram perceber contradições gritantes da 'cidade grande'. Essas percepções encaminharam o projeto na intenção de prever ousadamente um futuro extremo, onde as desigualdades e opressões advindas da existência dessa esfera urbana rentável se tornaram irreversíveis", afirma.

 

Na trama, Enya trabalha na empresa Somarca, mas se envolve num processo de luta e resistência. Para a intérprete da protagonista, a atriz Mara Rachel, o curta representa, assim, movimentos que crescem na Capital. "Enquanto mulher preta, periférica e bissexual, vejo que vêm se fortalecendo os movimentos que discutem questões feministas, LGBTQ , direito à cidade, movimento negro. Vejo nesses espaços de resistência, e nas pessoas que os constroem, maior ligação com as personagens principais do curta", defende. 

 

Ana adiciona que o "fortalecimento dessas esferas urbanas periféricas" passa pela ocupação de espaços públicos, culturais, físicos e simbólicos", citando com maior identificação o Carnaval no Inferno, "bloco LGBTQ ", além dos bailes de reggae, batalhas de rap e movimento do skate e do pixo, por exemplo.

 

Para a construção da protagonista, Mara Rachel trabalhou nas identificações que sentia com a personagem, citando como principais auxílios o papel da diretora de elenco Mariana Canafístula e da própria Ana Francelino. A realizadora, por sua vez, destacou o papel das equipes de arte, figurino e maquiagem (formadas respectivamente por Dani Costa e Eduardo Barrosa; Felipe Arara e Paulo Victor; e Monstra e Helen de Sá) no estabelecimento de uma estética coesa que ajudou a construir a protagonista e, ainda, a Fortaleza distópica do curta.

 

A estreia em Tiradentes, para Ana e Mara, reforça o caráter da resistência que rodeia Espavento. "O alcance e reconhecimento que esse trabalho está tendo me faz sentir vontade de construir mais ainda e acreditar na força que a minha arte tem", considera a atriz. "Para mim, tem importância conjuntural. 

 

Diante dos tempos que vivemos, em que o governo propaga e legitima conteúdo machista, racista, LGBTQ fóbico, que agride os direitos humanos com o intuito de marginalizar grupos sociais historicamente oprimidos, a utilização do cinema como ferramenta de resistência é necessária por ser uma forma de registrar o pensamento e a realidade das conjunturas. Estrear em 2019 em Tiradentes é uma oportunidade de fortalecimento do debate sobre a necessidade de ocupação e defesa de nossos territórios", destaca Ana.

João Gabriel Tréz

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