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Jornal

Então-se pronto!!!

vida_e_arte

11/01/2019 01:30:00
Faltou energia na rua e Fransquinha, que já não era muito "boona" da vista, saiu feito doida de casa à procura de Nonatim. Lugar perigoso aquele; o cabinha só tinha 12 anos, e vai que o véi babau pega ele pra fazer sabão... Filho único, tinha de "botar coidado" nele, a mãe cinquentona.

Já lá se vão 20 horas e nada de o menino aparecer, nada de a luz voltar.

 

- Se eu fosse tu, caçava ele na beira do açude. Deve estar pescando com os fí de João Diogo - sugeria a vizinha Dilurde.

 

- Se for, Raimundo Nonato tá é pebado! - ameaçava a mãe.

 

- Pois num é, Fran! Bichim já é guenzo (tem o pezinho torto), tadim...

 

- Vai dar u'a mão de peia de chiqueirador nele!

 

Fransquinha demandou o tal açude. A noite, um breu só. Um metro à frente não enxergava o tronco dum coqueiro. A zelosa e braba mãezinha ouve a voz do seu bruguelo, entre tantas que celebravam a alegria das curimatãs pescadas de galão, às rumas. Felicidade grande no beiço do açude, peixe muito nos urus, água na risca do sangradouro, fartura à vista.

 

Acontece que Nonatim desobedecera às ordens da genitora e o castigo tinha de ser exemplar. Tateando no escuro (reconheceria seu Nonato pelo formato da cabeça de rapa-coco), Fransquinha acredita haver encontrado o filho fujão. E tome sola e haja pisa. O mais humilhante: na frente de todo mundo. Logo, claro, os gritos da criaturinha imolada, que detonava desrespeitosa.

 

- Ai, diabo! Tá doida, véa?

 

- Cuma é?!? Véa doida, é?!? Pois tome-lhe e tome-lhe e tome-lhe sova, seu bosta!!!

 

- Bruaca véa!!! - emendava "o menino da Fransquinha".

 

- Ah, é?!? Pois agora é que o "rêi" (relho) vai comer de esmola!

Sem forças para reagir, o garoto pede penico, em meio à gente ali desnorteada:

 

- Dona Fransquinha, pelamô de Deus! Pare de me açoitar! Por que essa surra em mim? A senhora devia dar era em Nonato seu filho!...

PS: Aquela surra toda que Fransquinha dava era em Bastiãozim, filho de Olegário, vizinho dela.

 

Filosofia pura

 

Corpão atlético, quase dois metros de músculos, parecendo Hulk normal das cores - nem verde, nem amarelo queimado. Lapa de homem que é um setenta. Bichão que é um medonho. Uma chulipa de Valdecir arranca metade do quengo da vítima.

 

Fala gritando, cospe falando. Na boca, 56 dentes. Sua "saboneteira" (fossa supraclavicular) comporta até cinco quilos de farinha. Apelidos: Mondrongo, Chabobêu, Mangolzão, Jumento. Come numa bacia. Ronca acima de 15 mil decibéis

 

Mas deu pra trás quando mais se fez necessário. Precisava pegar, imobilizar e dar uns cascudos no ladrão que se arvorara levar o celular da namorada, na frente dele. É que uma dor de barriga descomunal (com vontade insustentável) de obrar imobilizou Valdecir, que ficou feito "estauta" no meio do tempo. Sabedor do episódio em suas minudências, o velho Crocodilo concluiu:

 

- Ei, meu amigo! Um homem com vontade de cagar é um derrotado.

 

Por Tarcísio Matos

tarcisiomatos@opovo.com.br

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