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Jornal

Elogio da loucura

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19/01/2019 01:30:00
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"As duas coisas mais felizes que podem acontecer a um pintor contemporâneo são: primeiro, ser espanhol, e segundo, chamar-se Dalí. Ambas me aconteceram". Tão soberbo quanto seu generoso nome e longo bigode pontudo, o artista catalão Salvador Domingo Felip Jacint Dalí i Domènech ainda é uma fiel caricatura do gênio enlouquecido, assombrado e fascinado pelos próprios abismos internos. Dalí foi pintor, escultor, escritor, ilustrador e passeou com maestria por linguagens como moda, cinema, fotografia e teatro. Sedento, o maior representante do surrealismo construiu para si uma aura onírica que perdurou até o dia de sua morte - 23 de janeiro de 1989, aos 84 anos. No dia seguinte, os "últimos delírios alucinatórios de Dalí", vítima de uma parada cardiorrespiratória, foram manchete da primeira edição do Vida&Arte. Nesse incansável baile da vida, nascia assim o novo caderno cultural do jornal O POVO.

 

A cidade de Figueres, norte da Catalunha, foi berço natal de Salvador Dalí em 11 de maio de 1904. Com apenas 13 anos, Dalí começou a pintar e seu pai logo se apressou em organizar uma exposição familiar com seus desenhos a carvão. Cinco anos depois, o jovem mudou-se para Madri a fim de ingressar na Academia de Artes de San Fernando e foi na capital espanhola que conheceu um importante parceiro: o futuro cineasta Luis Buñuel. Juntos, Dalí e Buñuel lançaram o vanguardista filme Um Cão Andaluz (1928), com uma narrativa fortemente influenciada pela psicanálise freudiana e considerado ícone da estética surrealista.

 

Com suas renomadas pinturas que mais se aproximavam de "fotografias de sonhos pintadas à mão", como o próprio Dalí costumava descrever, o artista ingressou no surrealismo com o quadro Jogo Lúgubre (1929). Mas seu flerte descarado com regimes totalitários rendeu-lhe a expulsão do movimento ainda em 1934, decisão do líder André Breton, ávido defensor da doutrina marxista. Irrepreensível exibicionista, Dalí desdenhou: "O surrealismo sou eu". Não era exagero.

 

"Podemos identificar o pintor Salvador Dalí como a personificação do surrealismo. Seu trabalho integrava a realidade e o mundo onírico de forma original e definitiva. Dalí foi muito tocado pelas teorias psicanalíticas de Freud e trouxe para a sua pintura objetos e espaços que habitam nossos sonhos. De fato, o verdadeiro significado das suas pinturas está na integração da própria vivência do pintor, suas curiosidades e seus delírios. Ele criou o 'método paranoico crítico', onde estudava seu processo criativo e seu caminho irracional - ou seja, ele utilizava sua vida como fonte de criação e conhecimento. Este procedimento é característico do surrealismo, quando buscamos na vida real diária a inspiração para os projetos artísticos. Mas também na vida interior de cada um. Por isso mesmo, sua produção foi intensa e múltipla: tudo era fonte de inspiração", elucida a mestre em Teoria, Mediação e Criação pela Universidade de Toulouse Le Mirail e professora do curso de Design Digital da UFC, Diana Medina.

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Trinta anos após sua morte, Dalí continua influenciando a arte contemporânea e a cultura popular. Uma das mais recentes referências ao excêntrico pintor catalão é a máscara de seu rosto utilizada pelos personagens da série La Casa de Papel (2017). "Automaticamente, a atenção dos espectadores foi atraída pelos macacões vermelhos e a máscara familiar para os admiradores da arte surrealista. O assalto planejado na série se tornou uma verdadeira obra de arte e parecia ser impossível, assim como as pinturas de Dalí", argumenta o estudante de História Fred Souza. "Se hoje a arte contemporânea se caracteriza pela aproximação do público com a obra, ou é rica em exemplos de integração absoluta da arte com a vida, podemos reconhecer a influência do trabalho inicial de Dalí. Na sua vida rica de experiências sempre foi um curioso em potencial e estava atualizado sempre chegando a realizar experiências com estereoscopia e holografia. Talvez nos dias de hoje ele seria um adepto da realidade virtual com muita convicção", complementa Diana.

 

Imersão surrealista

 

Na pequena cidade de Figueres, na costa da Espanha, localiza-se o Teatro-Museu Dalí, dedicado ao trabalho do artista nascido em terras catalãs. O museu abriga ilustrações, colagens, instalações, esculturas e até joias desenhadas por Salvador Dalí. Um dos destaques é o quarto dedicado à atriz e escritora norte-americana Mae West. Ponto turístico do município, o atual museu era um antigo teatro bombardeado na Guerra Civil Espanhola e reconstruído em 1960 com auxílio de Dalí.

 

Especial

 

Na próxima quinta-feira, 24, O POVO publicará o especial Vida&Arte 30 anos, resgatando importantes fatos que marcaram a história do caderno nas últimas três décadas.

Bruna Forte

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