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Jornal

Caminhada das almas

Matéria sobre o filme "Currais"

12/01/2019 01:30:00
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A seca é presença natural e constante na historiografia do Ceará e algumas datas em que o fenômeno climático marcou profundamente o Estado e as vidas de muitos cearenses se destacam - 1879, 1915, 1932. Foi na época deste último que os campos de concentração, para os quais eram mandados muitos dos castigados pela seca daquele ano, se fortaleceram como política de Estado, oficializando a higienização e o trabalho escravo. Debruçando-se nessa realidade, os realizadores cearenses Sabina Colares e David Aguiar produziram o longa Currais, que estreia no final do mês na Mostra de Cinema de Tiradentes na seção Olhos Livres. Respondendo em conjunto, os diretores discorrem sobre decisões narrativas, história e a seleção para o evento.


"O cantador e repentista Geraldo Amâncio certa vez falou sobre os campos de concentração em Senador Pompeu, então resolvemos pesquisar o fato e descobrimos a 'caminhada da seca', também chamada de 'caminhada das almas': um culto aos mortos no campo de concentração da barragem do Patu (local onde os flagelados ficaram cativos em Senador Pompeu) no qual descendentes dos flagelados e grande parte da comunidade do Sertão Central acreditam que as almas dos mortos lá tornaram-se milagrosas", estabelecem. Com a descoberta, voltaram-se à pesquisa acadêmica sobre o tema no curso de História da Universidade Federal do Ceará e, com a professora doutora Kênia Sousa Rios e o historiador, realizador e pesquisador Ted Rafael, descortinaram "os significados da sociedade cearense atual".


O grupo foi se deparando na pesquisa com materiais de arquivo sobre os campos, mas também com a barreira do apagamento histórico. Dessa forma, o projeto resultou em um híbrido entre documentário e ficção, partindo de gravações verídicas de um antigo concentrado. "Narrar parte de nossas vivências nos encontros com estes personagens e locais poderia ser a nossa estratégia de abordagem do tema. Utilizamos um personagem que ficcionalizamos ser neto de um remanescente recentemente morto que, ao se deparar com algumas gravações, resolve viajar pelo sertão em busca das narrativas e vestígios. É nesse momento que tomamos o apagamento histórico a nosso favor", explicam os diretores.


O ator Rômulo Braga, então, dá vida a Romeu, "protagonista-dispositivo" para o desvelamento das histórias. "Os encontros se davam sem contato prévio de Rômulo com os outros personagens e ele não sabia o que iria encontrar, sentir, compartilhar, descobrir", afirmam. Há ainda um segundo núcleo - formado pelos atores Zezita Matos, Vitor Colares e Débora Íngrid - desenvolvido como ficção, mas que reconstrói fatos vividos pelos concentrados, para "trazer um conhecimento mais didático".


"Os flagelados, seja no sertão, seja na capital, foram tratados como uma mão de obra totalmente manipulável pelos poderes civis e militares, os quais usavam como desculpas palavras como 'ordem', 'progresso social e econômico', 'limpeza da raça', 'higienização da cidade', 'caridade' (o discurso religioso teve papel fundamental para legitimação dos crimes do Estado)", contextualizam. Os realizadores lembram, ainda, que na pesquisa, encontraram denúncias feitos por O POVO na época que relatavam a violência, o uso de trabalho infantil e desvio de verbas característicos do campo.

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São muitos os paralelos de causa e consequência entre os campos de concentração, o apagamento dessa parte da história do Ceará e diversas realidades do Estado hoje. Sabina dá como exemplo a história do pai de um dos personagens do longa, José Maria Taboza, que foi flagelado da seca em Fortaleza e viveu no campo do Pirambu, "local onde a grande massa de retirantes da seca acabava por ser empurrada" ao longo de décadas. "Depois, (achamos significativo que) o próprio Maria Tabosa, que presenciou e ainda presencia uma série de explorações de sua classe social e um completo desmantelamento das famílias em completo estado de vulnerabilidade social, tenha visto os descendentes da elite tentarem tirar os agora moradores da região do Pirambu e proximidades em nome da especulação imobiliária. Nisso, percebemos apenas a ponta do iceberg dessas permanências históricas e sociais", analisam.


O longa foi apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural, que deu aporte para a pesquisa e a produção e pelo XIII Edital Ceará de Cinema e Vídeo, que auxiliou na pós-produção. "É de fundamental importância esse tipo de incentivo para a manutenção do cinema nacional. A arte é um dos principais veículos de construção de conhecimento e saber para qualquer sociedade", defendem. Apesar do que classificam como "desmantelo das políticas públicas", os realizadores comemoram a estreia na prestigiada Mostra de Tiradentes. "Estrear o filme em um festival com as características e importância dessa mostra no cenário nacional, ainda mais para quem está iniciando, é uma grande oportunidade e, principalmente, possibilita visibilidade a um tema tão importante no atual momento histórico em que passamos", celebram. A expectativa, após o circuito de festivais, é a estreia comercial, ainda sem previsão.

João Gabriel Tréz

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