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A propósito de estrelas

vida_e_arte

01:30 | 12/01/2019
A poesia verdadeira é muito difícil de alcançar. Exige mais que mero deslocamento desenhado de palavras, ou um embelezamento esvaziado e fraco. Atingir estado de poesia depende da passagem que as palavras fazem pelo espírito, de como entram e saem da alma. Ou seja: depende da alma. Ser bom poeta é uma condição rara que a poetisa portuguesa Adília Lopes, por exemplo, atinge por natureza. Tenho pensado muito nela desde que li "Um jogo muito perigoso", publicado no Brasil pela Editora Moinhos. É um livro tão bonito que parece um porta joias, um aquário de peixes delicados.

 

Adília é portuguesa, mora em Lisboa e como diz muitas vezes, tem uma vida difícil. Foi diagnosticada com uma psicose esquizo-afetiva e este carimbo a acompanha quase como um sobrenome. O assunto é mencionado como algo que faz parte de sua existência, uma das coisas que precisa superar diariamente. Somos todos assim, uns Sísifos. Também temos nossas pedras diárias para levantar monte acima. Mas as dores dela quase nascem como versos.

 

Vi uma foto de Adilia de olhos fechados, de costas para uma coleção de bibelôs, quadros, papéis que devem parecer, talvez, com o universo de palavras que orbitam em sua cabeça. Parecia uma criança grande, aquelas meninas vestidas com roupas e óculos de suas avós. Alguma coisa preservou em Adilia o olhar infantil para o mundo. Isso está na sua aparência e na matéria prima da poesia que ela faz brotar das pontas dos dedos com habilidade e alguma inocência.

 

Quando perguntaram à Adilia sobre a possibilidade de escrever outros gêneros literários além da poesia, sua resposta foi muito segura: eu penso em versos. Diz que não consegue ser de outra forma, as coisas já chegam assim. Isso lembra a sua conterrânea e principal influência, Sophia de Mello Breyner Andresen. Ela dizia que sentava no seu jardim e achava que poesia era algo que viria das plantas, da natureza e chegaria como o sopro suave do vento.

 

Nas entrevistas que li, Adilia repete tantas vezes que tem uma vida difícil, como tudo lhe custa muito esforço, que isso comove profundamente. Existem dessas dores que são as piores, difíceis de explicar, impossíveis de entender, que nada alivia. Uma dor no coração, na alma, nos pensamentos, este parte abstrata do corpo onde se instalam as dores invisíveis, inalcançáveis, sem  trégua. Que não tem reza, remédio, santo ou mandinga que possa curar.

 

Mesmo assim, Adilia escreve sobre a beleza, os detalhes, as coisas imensas do cotidiano. Seu poema de que mais gosto chama-se A propósito de estrelas porque é, para mim, a definição mais completa e pura da paixão. A mais inocente e sincera declaração de amor. Peço licença à grande Adilia para terminar minha crônica tomando suas palavras por empréstimo:

"Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas, se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz.

 

Hoje quando penso no rapaz penso em estrelas e quando penso em estrelas, penso no rapaz.

 

Como me parece que me vou ocupar com as estrelas até ao fim dos meus dias, parece-me que não vou deixar de me interessar pelo rapaz até ao fim dos meus dias.

 

Nunca saberei se me interesso por estrelas, se me interesso por um rapaz que se interessa por estrelas.

 

Já não me lembro se vi primeiro as estrelas, se vi primeiro o rapaz, se quando vi o rapaz, vi as estrelas". 

 

Socorro Aciolisocorroacioli@gmail.com