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Um sorriso negro

| DOCUMENTÁRIO | Diretor do filme "Rainha Quelé" (2012), Werinton Kermes fala sobre a força e a influência de Clementina de Jesus na história da MPB e do povo negro

01:30 | 08/11/2018
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É difícil definir Clementina de Jesus. Ela era mais que cantora, mais que intérprete, mais que artista. Ela era um símbolo de uma história, de um povo, de uma herança, de uma miscigenação. Ao mesmo tempo em que isso tudo vinha à tona quando ela soltava a voz, era preciso um tempo até absorver tudo. E é esse impacto que Werinton Kermes tenta transmitir no filme Rainha Quelé. Lançado em 2012, o documentário integra a programação da Sessão Sonora deste domingo, 11, no Cineteatro São Luiz. Atual secretário de Cultura de Sorocaba, o jornalista e fotógrafo tem uma larga produção de livros e filmes. Entre os documentários, ele contou sobre a vida bucólica da cidade de Alexandra, no Paraná (no filme A Bicicleta e o Caranguejo, 2012) e sobre o compositor João do Vale. Sobre Clementina, ele não economiza elogios e detalha a importância de valorizar uma mulher tão esquecida na cultura brasileira. Confira.

 

O POVO - Qual a importância de falar em Clementina de Jesus nos dias de hoje?

Werinton Kermes - Falar de Clementina é importante em qualquer tempo. Mas neste, ainda mais. Negra, pobre, doméstica, com uma voz rascante e única, diferente de tudo o que havia nas mídias da época, chegou ao palco e aos meios de comunicação depois dos 60 anos. É importante que a imagem de Clementina chegue às novas gerações pelo fato de que ela é uma das referências matriciais da cultura brasileira. Sua música foi um manancial de oralidade e memória de matriz africana no Brasil. Ela nos faz lembrar o quanto somos todos negros. O quanto devemos aos negros.

 

O POVO - Como e quando surgiu a ideia de fazer esse documentário? E por onde você começou a pesquisa?

Werinton - A ideia surgiu nos idos de 1980, quando vi Clementina no palco, em minha cidade (Sorocaba, SP). Mas só começamos a materializar a ideia entre 2010 e 2012. O auxílio foi um livro de Herom Coelho, pesquisador, que nos ajudou a sistematizar as informações. As dificuldades foram as de sempre. Falta de patrocínio e a dificuldade da família entender a necessidade de que estas informações circulem. As facilidades: a receptividade dos entrevistados. O nome de Clementina abriu as portas e muitos artistas se mostraram dispostos a falar sobre ela com amor e encantamento.

 

O POVO - Queria saber sobre a pesquisa que deu origem ao filme. Que entrevistados foram mais relevantes?

Werinton - A fonte foi o livro organizado por Herom Coelho, Clementina de Jesus, que reúne textos de diversos pesquisadores. Depois foram arquivos das TVs , sobretudo a Cultura, arquivos de imagem do próprio Herom. Um depoimento fundamental foi o de João Bosco. Além dele, Paulinho da Viola, por terem convivido muito com ela e terem histórias pessoais de reconhecimento, inclusive deles mesmos como músicos. João Bosco afirma que Clementina foi quem o fez olhar para si mesmo e se reconhecer como brasileiro.

 

O POVO - Se a gente for falar de herança artística de Clementina de Jesus, você vê algum outro artista que deu continuidade ao que ela fez?

Werinton - Não existe nenhuma outra voz, nada que se compare à Clementina. O João Bosco talvez seja um exemplo ainda presente, nas vocalizações que realiza. Elza Soares, com outra voz e outro comportamento, talvez tenha um quê de Clementina. Mas há Clementinas por aí, lavando roupa e cantando. Há Clementinas nos palcos e nas ruas de Fortaleza. Há muitas. Apenas não veem à luz porque não há interesse das mídias. Clementina é uma voz popular. Está nos terreiros de candomblé, no jongo, nas rodas de partido alto. A cultura popular resiste. Apenas não é vista pelos meios de comunicação. Por isso se vê a sua fortaleza. Ela resiste apesar do descaso, da fome, da falta de recursos e apoio, até mesmo apesar da falta de reconhecimento e inclusive perseguição. É uma cultura de gente brava, forte, que sobrevive apesar de tudo.

 

O POVO - Você lembra como foi a primeira vez em que teve contato com a obra dela?

Werinton - Foi na década de 1970. Houve um show em Sorocaba. O público não apareceu porque choveu muito, muito mesmo. Ela veio ao palco, magnífica. Cantou para meia dúzia de pessoas encantadas com aquela presença. Era de se estranhar, mas havia um quê de sagrado, por ser uma senhora, negra, quase uma entidade. Além da voz, havia nela segurança, autoridade, sacralidade. Como uma rainha, uma deusa. O arquétipo da mãe, a mãe de todos.

 

O POVO - Você também tem um filme sobre o João do Vale. Que semelhanças e diferenças existem entre esses dois personagens, o João e a Clementina?

Werinton - Os dois negros, pobres. Os dois com nenhuma escolaridade. Os dois com enorme reconhecimento dos artistas consagrados. A diferença talvez esteja na obstinação de João que quis ser artista e foi atrás disso, se mudou para o Rio de Janeiro e vendeu suas composições para se tornar conhecido. Clementina nunca buscou ser artista. Aconteceu...

 

O POVO - No ano passado, marcou-se 30 anos da morte de Clementina. Se você pudesse dar a ela um presente, o que daria?

Werinton - Clementina é remanescente de quilombo. Seria um presente se tantos quilombolas não fossem assassinados no Brasil todos os anos.

 

MARCOS SAMPAIO

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