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O grande salto

| Estreia | Novo filme de Damien Chazelle, o ótimo O Primeiro Homem mostra a trajetória de Neil Armstrong - e de Janet Armstrong -, da Terra até a lua

01:30 | 11/10/2018

O pai do cinema Georges Méliès (1861 - 1938), em 1902, ajuda a dimensionar o que era ter a lua como fronteira intangível no clássico máximo Viagem à Lua. Aquele satélite feito de queijo, que tomava obras de ficção científica de Júlio Verne (1828 - 1905) e H. H. Wells (1866 - 1946) como inspiração, expõe um anseio da humanidade só satisfeito em 1969, quando os astronautas da Apolo 11 pisaram no solo arenoso do corpo estelar mais próximo da Terra. Ali, um sonho milenar virou realidade. Coube a um homem a honra de dar o primeiro passo. Antes desse salto da humanidade, porém, houve um fardo.

 

O Primeiro Homem, cinebiografia do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling) dirigida por Damien Chazelle (Whiplash/2014; La La Land/2016), é muito mais dor que brilho. Era 1961 e o então engenheiro e piloto de testes tentava se concentrar na sua perigosa rotina, enquanto sua filha, Karen, de 2 anos, enfrentava um tumor no cérebro. De cara, o diretor de fotografia Linus Sandgren joga o espectador no turbilhão da cabeça do personagem intimista. A câmera balança tanto quanto o foco de Neil Armstrong, o que ganha ainda mais força diante da caracterização (quase) sempre fechada de Gosling.

 

Após a morte de Karen e o novo foco do agora astronauta do programa espacial norte-americano, Sandgren aos poucos se distancia e equilibra a nauseante fotografia, que aos poucos vai ganhando cores. O Primeiro Homem é muito sobre sacrifícios e esse jogo de câmera ajuda o público a não esquecer disso. Armstrong é alguém que se aparta da família por saber dos riscos com que convive e é nisso que surge a grande personagem da obra.

 

Ryan Gosling interpreta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua Divulgação
Ryan Gosling interpreta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua Divulgação

A Janet Armstrong da excelente Claire Foy é arrebatadora. Se o conflito de Neil é entre um dever cívico e a missão com a própria família, o da mulher é sobre até que ponto ela deve empurrar o marido. É uma personagem com tempo de tela limitado e cujo dilema é demarcado apenas pela atuação precisa da atriz britânica, em sua primeira grande chance no cinema norte-americano. A dor pelo marido, o sentimento de desamparo, a força para contrariar os superiores de Neil na Nasa mostram uma infinidade de qualidades que representam uma quebra na narrativa de heroísmo patriota para o qual o filme arriscava cair. Claire Foy é o elemento que faz de O Primeiro Homem uma obra sobre a Terra, não sobre a lua.

 

Neil Armstrong é um personagem difícil. É um ser definido por um feito. A característica mais demarcada ali é a abnegação, a obstinação por uma causa maior. A cada perda, da filha, de colegas pilotos, há um sensível peso maior ali - e a trilha sonora ajuda muito a dimensionar aquilo. Assim, o longa se desvencilha da noção de feito pessoal para direcionar a um sentido maior, para imprimir a certeza de uma construção coletiva de uma geração de astronautas. O interessante é que Damien Chazelle não apela para a "patriotada". 

 

A corrida espacial girava totalmente em torno da Guerra Fria. O filme, no entanto, nunca é sobre o acirramento dessa competição entre Estados Unidos e União Soviética. O que há é, no máximo, a contextualização dos investimentos norte-americanos como resposta aos feitos dos cosmonautas soviéticos - como Yuri Gagarin, o primeiro homem a ser lançado no espaço. Chazelle tem mais uma preocupação humanística que nacionalista. Neil Armstrong fez um feito para a humanidade, com o próprio dando declarações enquanto dava os primeiros passos no solo lunar.

 

Ao contrário de filmes sobre desastres espaciais, focados em histórias menos conhecidas que a da Apolo 11, O Primeiro Homem não aposta em suspense, em reviravoltas ou em uma exacerbação da tensão. Afinal, todo mundo sabe que Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll, que traz um ótimo contraponto a Ryan Gosling) sobrevivem ao voo. O que há é esse misto de sofrimento, obstinação com o fascínio que só um objetivo quase impossível pode causar. Era 1969 quando a utopia de gerações - de Júlio Verne, de Méliés - virou mais que um sonho. Hoje, podemos relembrar o que era sonhar com o que fora impossível. 

 

ANDRé BLOC