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De volta à Pasárgada

| Poesia | Há exatos 50 anos morria Manuel Bandeira, o poeta que, na abundância de versos livres, transporta o leitor para um mundo de sonhos e descobertas através da palavra

01:30 | 13/10/2018
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Pasárgada é o paraíso do poeta. Por lá ele andaria de bicicleta, montaria em burro brabo, faria ginástica - subiria em pau de sebo! Neste país de delícias, a simples vontade impera como lei: "Vou-me embora pra Pasárgada!", decidiu-se Manuel Bandeira. Antes de partir para sua Pasárgada, no entanto, ele andou pelo mundo a brincar essa "doce coisa indócil" que é a poesia. Fez graça nos versos livres, descobriu musicalidade nas palavras e uniu o sublime ao mais simples - abriu caminhos na literatura brasileira.

 

Por ter vivido a maior parte dos seus 82 anos no Rio de Janeiro, Manuel Bandeira costumava ouvir comentários sobre ter nascido recifense "por acidente". Depois de trocar as ruas do Recife pelo bairro carioca de Santa Teresa antes da primeira década de vida, aprendeu a fazer de sua poesia o retrato da cidade que observava em suas caminhadas "Subindo a morros maiores, Grande Rio de Janeiro!" - evocava.

 

Quando tinha 18 anos, iniciou seu penoso ofício de "escrever versos como quem morre". Diagnosticado com tuberculose, doença que carregou durante longos anos, tomou para si uma disposição poética com certa visão privilegiada de vida e o seu fim. "É assim que ele reconstrói em sua obra, com simplicidade e beleza, duas necessidades vitais da 'aventura' do homem - o trágico e o cômico", considera Lourival Holanda, professor de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, escritor e membro da Academia de Letras de Pernambuco.

 

"Na poesia, ele criou uma conjunção feliz entre viver e transfigurar a realidade. Suas grandes aventuras, de fato, foram internas. Diante da ameaça e do desespero, ele encontra uma saída inesperada: recorrer ao cômico para exorcizar o trágico de sua condição", explica Lourival. Para ele, Pneumotórax, seu poema da "vida inteira que podia ter sido e que não foi", é uma dos exemplos dessa marca distintiva em sua obra.

 

Curioso é que, mesmo considerado precursor do Modernismo, Manuel não esteve na Semana de Arte Moderna de fevereiro de 1922, marco temporal do movimento. Sua ausência, no entanto, não impediu que seu poema Os Sapos fosse lido com entusiasmo na segunda noite do evento. Em meio às vaias de uma plateia escandalizada, o texto foi declamado pelo poeta Ronald de Carvalho. Onde nos versos falta métrica, transborda ironia. "Mas ele não se considerava da geração daqueles rapazes do modernismo, sobretudo porque não compartilhava do radicalismo do grupo", explica Cid Bylaardt, professor do Departamento de Literatura da UFC.

 

De fato, "embora não se considerasse modernista 'de carteirinha'", continua Cid, "Bandeira teve vários de seus poemas publicados na seção 'Mês modernista' do jornal A Noite, o que lhe rendeu o primeiro dinheiro ganho com literatura". No seu livro Libertinagem, considerado o mais modernista de todos, Manuel Bandeira homenageia seus companheiros entusiastas de 1922 (em sua maioria uma década mais novos do que ele), de alguma forma ligados ao movimento. É deste livro, por exemplo, seu icônico Vou-me embora pra Pasárgada, que segundo Bandeira, foi "o poema de mais longa gestação de toda a sua obra".

 

Como um homem receptivo a tudo o que era novo, Bandeira não se filiou, a rigor, a nenhum estilo literário: e então, sendo "muitos", colocou na ponta do verso sua inovação e técnica apuradas, tendo escrito seus primeiros versos livres de métrica antes mesmo da agitação modernista na literatura ganhar o País. "O Modernismo em Manuel Bandeira está na sua atitude diante da linguagem, no seu coloquialismo criativo, de iluminar, com outra intensidade, as coisas familiares", considera Lourival Holanda.

 

Para ele, Bandeira forjou a sensibilidade poética das gerações seguintes e foi, de fato, um "abridor de caminhos". "Penso que seu meio século de morte merece um luto colorido: é uma celebração, uma gratidão por ele ter passado por aqui", completa.

 

"Sou poeta menor, perdoai!" dizia Manuel nos versos de seu Testamento, poema de 1922. Bandeira, no entanto, andava muito além de ser um poeta menor. Era também prosador, ensaísta, crítico e historiador literário. Ademais, um apaixonado pelo universo musical. Tocava piano e violão e, em seu Itinerário da Pasárgada, livro de memórias poéticas, escreveu: "Não há nada no mundo que eu goste mais do que de música. Sinto que na música é que conseguiria exprimir-me completamente".

 

Bandeira foi o poeta mais musicado de sua geração, entre poemas seus que foram musicados e letras que escreveu para melodias já existentes - 128 composições, de acordo com o banco de dados do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que fiscaliza direitos autorais. A maior parte dessa produção, no entanto, ainda é pouco conhecida do público - ao contrário, por exemplo, do sucesso que alcançou em vida Vinicius de Moraes, poeta e compositor popular. O primeiro parceiro de Manuel Bandeira, em 1920, foi o compositor Heitor Villa-Lobos. A dupla produziu cerca de 15 composições, e o pouco que foi gravado só pode ser encontrado em discos hoje fora de circulação.

 

Embora não tenha escrito todos os poemas com a intenção de musicá-los, boa parte de seu repertório poético reúne versos que combinam ritmo, frases, palavras, rimas e métrica que, de modo sutil, ganham contornos musicais. Seus textos, por assim dizer, conduzem uma linguagem que flui ao correr dos olhos - "para cá, para lá.../para cá, para lá", como sugere seu poema Debussy. Rua do Sabão, Pensão Familiar e Sacha e o Poeta são alguns poemas que colocam o leitor diante de uma riqueza de som e lirismo.

 

IVIG FREITAS