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O que não mata torna mais forte

01:30 | 28/07/2018

No interior de um Brasil bruto, lá onde a cultura do domínio e da obediência ainda era intocada, as mulheres sertanejas - mais longe no espaço e no tempo do que as outras - cumpriam a sina primária de serem mulheres: nasciam para casar e ter filhos, sem direito à vontade e à história próprias. Ao cruzar os sertões nordestinos, indo já para a década de 1930, o cangaço significou uma arriscada rota de fuga para 60, 70 mulheres (o registro histórico é inexato).


Maria, de Lampião, foi por amor; Sila, de Zé Sereno, por ameaça; Dadá, de Corisco, por natureza; Adília, de Canário, por transgressão... “Meu pai num deixava eu me pintar, num deixava dançar. Adepois que eu saí (de casa), eu dançava, penteava o meu cabelo do jeito que eu queria”, retrata a sergipana Maria Adília de Jesus sobre 1936, o ano em que se tornou companheira de Canário, no documentário Feminino Cangaço (2016; disponível no YouTube).


Para um dos realizadores do documentário, Manoel Neto, historiador e diretor do Centro de Estudos Euclydes da Cunha (Universidade do Estado da Bahia), a entrada da mulher no cangaço “rompe com preceitos historicamente enraizados”. “Donas de mato” e não “de casa”, como se diziam, elas não estavam no bando para cozinhar; os cangaceiros sempre fizeram isso. Nem combatiam; apenas Dadá lutou, e quando Corisco ficou inutilizado em confronto com a polícia (1939).


Também não era pelo sexo, que para essa necessidade serviam os prostíbulos ou a força. Talvez, valorizam estudiosos, tenha sido o caso de afeição ou a (des)graça da paixão, que ninguém está a salvo dos sentimentos na vida. “Elas foram para ser companheiras deles”, amplia Manoel Neto. “O papel delas era cuidar deles. E eles tinham o maior cuidado com elas”, dialoga a jornalista Wanessa Campos, autora do blog Mulheres do Cangaço.


Entre o ódio e o amor, está o caso da pernambucana Sérgia da Silva (Dadá), raptada e violentada por Corisco dos 13 para os 14 anos. Ela foi fiel ao cangaceiro até 1940; de sua parte, Corisco lhe ensinou a ler e a escrever, abranda a memória histórica. “A vida da mulher do cangaço, primeiramente, respeito ao marido, pra se sair bem. A segunda, como eu vivia, era dirigir tudo. Eles cozinhavam, na hora da comida, eu ia dividir. Se precisavam de uma camisa, eu endireitava”, espelha Dadá, em Feminino Cangaço.


Adornadas e perfumadas para viver na caatinga, elas se fizeram companheiras em uma vida de morrer, matar ou sofrer, de “dormir no molhado, andar no espim, tomando tiro”, como ecoa Dadá. De comer xique-xique para amansar a fome, de tomar banho se tinha rio no caminho, de beber “juazeiro, pereiro, ani, macela”, como bebeu Adília para abortar e “o menino teve que nascer”. De parir debaixo de umbuzeiro, enquanto fugiam da volante, de dar os filhos para que vingassem sem saber quem eram.


“Não existia esse negócio de separação. E não podia sair do mato mais, que ninguém queria ser presa. E acostumei respeitando ele, até quando cheguei em São Paulo, em 81, foi quando ele morreu”, une a sergipana Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, de Zé Sereno, em entrevista a Jô Soares ao lançar a biografia Memória de Guerra e Paz.


Também não existia traição, que era extirpada com as próprias mãos. A baiana Lídia Pereira de Souza, que foi fiel a si mesma, teve o mais belo rosto do cangaço desfigurado a pauladas por Zé Baiano. “Havia os códigos de honra enraizados, que vinham desde o período colonial”, costura Manoel Neto. Longe de tudo, o cangaço caminhava em direção ao passado; as mulheres continuavam dos homens, trocaram uma lei desigual por outra da mesma autoria.


Se foram felizes do jeito que foram, as fotografias e os filmes de Benjamim Abrahão mostram também algum riso. O muito é silêncio. A certeza que reverbera é a das coragens que só o feminino possui. As 60, 70 mulheres que entraram para o cangaço também entraram fortes para a História de um Brasil bruto.

 

ANA MARY C. CAVALCANTE

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