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O despejo e o moinho

| Cineteatro São Luiz | Leitura dramática reúne as obras da escritora Carolina Maria de Jesus e do músico Cartola para debater questões sociais

01:30 | 26/07/2018
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Olhada com desconfiança por críticos literários até hoje, a autora Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977) entra, no próximo sábado, pela porta da frente de um dos principais palcos cearenses. "Se ela estivesse viva, ia ficar extremamente feliz de ver a obra dela num teatro tão bonito e importante como o São Luiz", concebe Andreia Pires, diretora de Barracal, leitura dramática de trechos do livro Quarto de Despejo (1960). A obra cênica, cuja dramaturgia traz paralelo entre literatura e as músicas do sambista Cartola (1908 - 1980), tem única apresentação às 19 horas no próximo dia 28.

 

Fenômeno editorial, o livro que ganha voz e corpo a partir da reunião de atores, cantores e bailarinos atuantes na Capital nasce como um diário de relatos do cotidiano de pobreza da favela do Canindé, zona norte de São Paulo. "Mulher, vinda da classe menos favorecida, negra. Toda essa força aumentou ainda mais minha admiração por Carolina Maria de Jesus. É impressionante como ela conseguiu extrair arte de tanta precariedade", celebra a atriz Larissa Góes, um dos destaques do teatro musical no Estado. Além dela, que protagonizou Iracema ano passado, o elenco tem outros expoentes da nova geração, a exemplo de Vinícius Cafer (do celebrando A Hora da Estrela) e a atriz e cantora Luiza Nobel.

 

"Não é um grande musical estilo Broadway, com elementos clássicos, é uma leitura dramática encantada e musicada. Não queria fazer uma encenação que fosse para o lugar da representação, não queria perder a força da palavra daquela mulher", detalha a diretora, que integra a Inquieta Cia de Teatro, grupo no qual teve acesso às primeiras leituras sobre Carolina. Mesmo sem verba pública ou privada (contando apenas com o apoio da produtora cultural Quitanda das Artes), a artista encarou a montagem, cuja equipe conta também com Amanda Monteiro, Gabriela Ribeiro, Nara Hope. Rayane Fortes, Gil Rodriguês, Handalo Félix, Mariana Chaves, Isabela dos Santos, Bianca Goes e Luciene Feitosa.

 

A junção de Carolina e Cartola, dois artistas advindos da periferia, levanta discussões ainda atuais sobre certo olhar elitista presente nas artes. A diretora ressalta o fato de os dois terem lutado para defender a arte que faziam, apesar das desconfianças. "Os dois moravam no morro e os dois foram pouco reconhecidos em vida. Existe entre eles um encontro, não só de gerações, mas de força de vida artística", traça, destacando ainda ser o músico muito mais conhecido do que a autora. "Barracal também é uma forma de ele ajudar a apresentar ela para quem não conhece", completa.

 

Larissa ressalta o processo de montagem como um terreno fértil para os próprios artistas levantarem questões identitárias e reflexões sobre os lugares de origem. Para a atriz, essa reverberação chegará viva ao público presente. "Ler Carolina e ouvir Cartola é de uma força visceral. Sou mulher, vim de bairro pobre, estudei em escola pública e, de certa forma, estive presente nesse meio que envolve a obra deles", ecoa.

 

A direção musical da obra cênica é de Pedro Madeira, da Orquestra Popular do Nordeste. A banda conta com Michael Rodriguez (bateria), Gabriel Padron (violino), Leandro Marechal (percussão) e Rafael Melo (pandeiro). "Escolhemos músicas que trazem poeticamente uma aproximação com a Carolina. Ele, pedreiro, conseguia ver no concreto poesia e transbordava isso pelas palavras", versa Andreia.

 

Barracal

Quando: sábado, 28, às 19 horas

Onde: Cineteatro São Luiz ( Rua Major Facundo, 500 - Centro)

Programação gratuita

 

RENATO ABÊ

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