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Lampião, a fera da sétima arte

01:30 | 28/07/2018
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O cangaço é um gênero cinematográfico tipicamente brasileiro, cuja temática foi consagrada no cinema nacional por clássicos, como O Cangaceiro (Lima Barreto, 1953) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964). Os primórdios dos filmes de cangaço remontam às décadas de 1920 e 1930, quando o movimento histórico ainda existia e Lampião vagava pelo sertão nordestino, povoando o imaginário popular com suas aventuras, para o bem ou para o mal.


As imagens captadas por Benjamin Abrahão em 1936 compõem o filme mais importante desse período e um dos mais significativos para o gênero, sendo um documento-chave para a compreensão antropológica do cangaço, além de um registro histórico no cinema brasileiro. O filme é bastante conhecido do grande público. O que a maior parte das pessoas desconhece é que Lampião foi protagonista de outros filmes antes do lendário encontro com Benjamin Abrahão.


De autoria e procedência desconhecida, Lampião: o Banditismo no Nordeste é um documentário realizado em 1927 e citado no livro Dicionário de Filmes Brasileiros (Curta e Média-Metragem), de Antônio Leão da Silva Neto, como o primeiro filme a retratar Lampião e seu bando de cangaceiros no cinema. Segundo a Revista Selecta (04/01/1928): “Lampião e seus asseclas apareciam na tela com estranha e apavorante indumentária de profissionais do crime. Um horror! Esta fita, infelizmente real, foi filmada no próprio sertão brasileiro, onde não há garantias de vida, porque os governos inescrupulosos chegam ao absurdo de associar-se aos bandidos, para se armar contra o adversário político. Essa é a triste verdade”.

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Em 1930, Guilherme Gáudio realizou Lampião, a Fera do Nordeste, uma ficção com cenas documentais. O filme relata o episódio da chacina do Rio do Peixe, na Bahia, “mostrando um Lampião monstruoso e sanguinário que matava até criancinha, lançando ao ar e aparando com seu punhal” (DIAS, 1984: 27). Na época de lançamento do filme, a revista Cinearte (16/04/1930) publicou o seguinte comentário: “Tudo filmado com a pior fotografia do mundo, sem noção alguma de arte e sem realidade. A interpretação é pavorosa! Tudo horrível! Como filme Lampião é mais prejudicial à Bahia que o próprio bandoleiro”.


Infelizmente, os filmes não resistiram ao tempo, e não foram encontradas mais referências ou qualquer outro tipo de fonte que confirme a veracidade da existência dessas obras, o que impossibilita uma análise mais detalhada e a chance de situá-los como filmes do gênero cangaço (um gênero cinematográfico não nasce do nada, geralmente é concebido por uma fase de experimentação, que pode ser representativa ou não). No entanto, é possível entender que o cangaço começou a fazer parte do cinema nacional a partir desses filmes, apesar das críticas incisivas, pois deram a sua contribuição – para o bem ou para o mal – à concepção do gênero, que imortalizou a figura de Lampião no cenário cinematográfico brasileiro.


Marcelo Dídimo é professor do Curso de Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFC e autor do livro O Cangaço no Cinema Brasileiro


MARCELO DÍDIMO

ESPECIAL PARA O POVO

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Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

Clássico do cinema brasileiro dirigido por Glauber Rocha, a obra é um dos marcos do movimento do Cinema Novo. O filme foi produzido e lançado em meio a um turbulento momento político do País que culminou na ditadura militar. Na trama, acompanhamos um vaqueiro que, explorado pelo coronelismo, acaba entrando no mundo do banditismo do sertão. Elementos como religiosidade, matadores de aluguel e outras questões sociais compõem o longa, protagonizado por Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos e Maurício do Valle.


Corisco & Dadá (1996)

Dirigido pelo cearense Rosemberg Cariry, o longa foi rodado na região do Cariri. Ele conta a história real dos personagens-título, o cangaceiro Corisco (Chico Diaz) e Dadá (Dira Paes), filha de um desafeto dele e sequestrada em represália, ainda na adolescência, aos 12 anos. Com o passar do tempo, a menina vai se integrando à rotina e às ações do bando de cangaceiros, que vai percorrendo o sertão nordestino para se livrar das perseguições policiais.

A Luneta do Tempo (2016)

Com direção do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, o filme é protagonizado justamente por Lampião (Irandhir Santos) e Maria Bonita (Hermila Guedes). O longa foge da cinebiografia convencional e traça uma visão poética e pessoal do sertão, tendo foco narrativo nas disputas do cangaceiro e seu bando contra as forças de repressão policial da época. Com diálogos rimados e música composta também por Alceu, o projeto demorou mais de uma década para ser concretizado.

 

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