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Grupo Expressões Humanas leva para o palco as questões indígenas

| TEATRO | Novo espetáculo do grupo Expressões Humanas tensiona questão indígena a partir da luta por demarcação de seus territórios

01:30 | 04/07/2018
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Foi após assistir ao filme Defensorxs, do coletivo cearense Nigéria, que o grupo teatral Expressões Humanas passou a alimentar o desejo de mergulhar na luta indígena por demarcação de terra. Depois do contato com o documentário, no qual a resistência dos Guarani-Kaiowá é primeiro plano, um novo projeto se desenhou. “É uma luta cruel e desigual dentro do capitalismo, que vai passando por cima de tudo”, avalia a diretora Herê Aquino, contando que o Expressões vem pesquisando com afinco o tema de 2015 até agora. Assim surge Îandé Tekoha, peça que estreia no próximo sábado, 7, às 20 horas, no teatro do Centro Dragão do Mar.


Para entender o tensionamento de perto, o grupo passou a acompanhar eventos e atividades como o Encontro SESC Herança Nativa e o Fórum de Museus Indígenas do Ceará. Os artistas participaram também de oficinas realizadas pelos indígenas, momentos de dança e celebração com os povos Funi-ô, de Pernambuco, e conversas e entrevistas com pajés e representantes das etnias Pitaguary e Tremembé. “A gente teve várias questões na montagem, a mais delicada é o fato de estarmos falando por outra voz”, aponta a encenadora, ressaltando a vontade de trazer o povo indígena para cena em primeira pessoa. Tanto que na estreia terá a presença dos povos indígenas Jenipapo-Kanindé e Pitaguary.


Para se aproximar da temática, o elenco – formado por Murillo Ramos, Marina Brito, Juliana Veras e Zéis – foi em busca da própria ancestralidade. “O espetáculo tem depoimentos dos quatro atores, eles falam como a questão indígena passa dentro da família deles, como foi tratado no período da escola, tudo para saber como esse tema batia na gente”, detalha Herê.


Em cena, a dramaturgia (feita coletivamente) aprofunda o assunto pela ótica do confronto desses povos com os grandes empreendimentos. A história é contada por meio da figura de uma velha índia e de sua neta. Elas vivem num acostamento de uma rodovia, espaço onde a “mão do progresso” e do agronegócio movimentam suas estradas e as deixaram desabrigadas. “Qual é o papel do agro, que na propaganda é pop, nessa injustiça?”, questiona a diretora, se referindo a campanha Agro: A indústria-riqueza do Brasil, da Rede Globo.


A atriz Marina Brito explica que essa metáfora do “agro” chega até à trilha sonora. “O agro, que é tech, não se encaixa na vida que o índio tem em relação à natureza e aí o Zéis usa a música tecno e mistura com essa musicalidade indígena”, conta. A proposta do espetáculo, completa a artista, é também ir contra essa ideia da cultura indígena congelada desde 1500. “O índio pode estar de calção da Adidas e ouvindo funk. Isso modifica, claro, mas não tira dele a sensibilidade para a ancestralidade. Um índio é muito mais do que vestir palha, é dentro, mexe com os valores da natureza, uma relação com o mundo”, aponta.


Nesse contexto, entra em cena em Îandé Tekoha o elemento do maracá, chocalho que já fora apropriado como um arquétipo desse índio idealizado. “Na reunião do Fórum de Museus Indígenas, a gente viu que, ao falar da luta deles, os indígenas balançavam os maracás, não só pela musicalidade, mas como afirmação dessa luta. Não é uma ‘fantasia’ para eles”, completa Marina.


Para dar vazão a um tema tão complexo, o Expressões se cercou de alguns dos nomes de destaque da cultura cearense. A iluminação é assinada por Wallace Rios, os figurinos são de Ruth Aragão. A cenografia ficou por conta de Rodrigo Frota, os adereços de Miguel Campelo e os bonecos de manipulação do artesão Murilo Cesca. Além disso, o grupo contou com auxílio do historiador João Paulo Vieira e com o diálogo com o cacique Cauã Pitaguary e a liderança Rosa Pitaguary. Muitas mãos em prol de uma peça que traz carga simbólica muito patente.


“Os Pitaguary vão subir com a gente no palco, porque eles estão passando outro perrengue agora com as terras deles. O espetáculo é de luta, mas também fala do afeto. Há outras formas de vida e outras formas de progresso que não é o nosso”, sustenta Herê.


Temporada de Îandé Tekoha

Quando: sábados e domingos de julho às 20 horas

Onde: Teatro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Quanto: R$ 20 (inteira)

 

RENATO ABÊ

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