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Excentricidade canina

| ESTREIA | O aclamado diretor Wes Anderson retorna com a animação Ilha dos Cachorros, segundo projeto em stop-motion de um dos cineastas mais visuais da atualidade

01:30 | 19/07/2018
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Excentricidade. O que se desvia ou se afasta de um centro. Originalidade, anormalidade, esquisitice, extravagância, irregularidade. Virou cacoete de cinéfilo usar o substantivo “excêntrico” para adjetivar o diretor Wes Anderson. Começou com “Os Excêntricos Tenenbaums (2001), terceiro longa do diretor e responsável pela primeira das seis indicações do texano ao Oscar. Quatro anos após o sucesso “O Grande Hotel Budapeste” – vencedor de quatro estatuetas e escolhida a melhor Comédia do ano no Globo de Ouro –, Anderson está de volta e promete muita esquisitice em sua segunda animação em stop-motion: “Ilha dos Cachorros”. O longa tem estréia nacional hoje.


O filme, que teve pré-estreia no Festival de Berlim – no qual levou o Urso de Prata de melhor direção –, conta a história de Atari (Koyu Rankin), um garoto japonês que parte em uma imensa jornada para encontrar seu cachorro perdido, Spots (Liev Schreiber). A obra se passa num fictício e distópico Japão do furuto, onde o autoritário prefeito da cidade de Megasaki bane todos os cães para a ilha Thrash (lixo, em inglês) para evitar o disseminação do vírus da influenza de cachorros – ou gripe canina.


No elenco de vozes, uma escalação bem típica de Wes Anderson. Edward Norton, Jeff Goldblum, Greta Gerwig, Bryan Cranston, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, Bob Balaban, Yoko Ono e, claro, Bill Murray são alguns dos escalados para o time de cães, gatos e robôs de “Ilha dos Cachorros”. A parceria entre Anderson e Murray, diga-se, repete-se pela oitava vez consecutiva em nove filmes do realizador texano. “Pura Adrenalina” (1996), estreia de Wes Anderson como diretor, é a única exceção. Seja como protagonista (“A Vida Aquática com Steve Zissou”) ou em uma ponta quase invisível (“Viagem a Darjeeling”), Bill Murray é tão certo numa obra do cineasta quanto os emblemáticos planos simétricos.


Tendo estreado nos Estados Unidos em abril, “Ilha dos Cachorros” arrecadou mais de US$ 60 milhões, o que já o põe à frente do, com perdão da repetição, fantástico “Fantástico Senhor Raposo”, a outra animação de Wes Anderson. Aclamado pela crítica, o filme de 2009 tem uma das piores bilheterias da carreira do diretor e arrecadou US$ 46 milhões, sendo ainda orçado em US$ 40 milhões – logo, lucro de “apenas” US$ 6 milhões. As cifras são do site Box Office Mojo.


Mesmo com a arrecadação morna, “Fantástico Senhor Raposo” é um atestado da qualidade de uma animação comandada por Wes Anderson e só faz aumentar a expectativa por “Ilha dos Cachorros”, a segunda incursão do cineasta no stop-motion. Enquanto o filme de 2009, indicado a dois Oscar, é baseado num clássico do galês Roald Dahl – um dos mais aclamados escritores de literatura infantil em língua inglesa –, a nova obra tem roteiro de Anderson, dos parceiros habituais, Jason Schwatzman e Roman Coppola, e ainda do ator Kunichi Nomura – que faz ainda a voz do prefeito Kobayashi no filme.


A obra bebe de influências de cinema nipônico, como Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu, dois dos ídolos do realizador texano, para construir um Japão futurista e distópico. O filme, aliás, tem sido criticado pelo retrato da cultura do país oriental. O crítico nipo-americano Justin Chang, do L.A. Times, por exemplo, elogiou o senso de inovação da obra, mas se queixou do uso dos diferentes idiomas em “Ilha dos Cachorros”. No filme, os humanos falam frases simples em japonês (sem legendas) que são interpretadas em traduções mais complexas por uma “intérprete” em inglês.

 

Visual de Wes Anderson

 

PLANOS SIMÉTRICOS

O diretor ressalta as estranhezas em planos em que os dois lados da tela são “espelhados”. É a característica mais forte e explorada por Anderson e uma das assinaturas do realizador, como pode ser vista nessa imagem de Fantástico Senhor Raposo (2009).

 

ELENCO REPETIDO

Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson, Tilda Swinton. São vários os atores que aparecem em mais de um filme de Wes Anderson, ainda mais diante do grande número de profissionais que trabalham em cada filme. Na foto, Murray e Schwartzman em cena de Três é Demais (1998).

 

PALETA DE CORES

Em geral, o cinema de Wes Anderson é apontado como “colorido”. Mas é mais que isso. Ele trabalha com uma paleta reduzida, mas com tons bastante saturados, em geral de vermelhos e amarelos. Na cena, de O Grande Hotel Budapeste (2014), ele trabalhou praticamente só com azul e rosa.

 

MONTAGEM

Wes Anderson tem uma mania de supercuts, de plongés (câmera com imagem verticalizada, voltada para baixo) e de planos-detalhe de objetos. Na foto, cena de Moonrise Kingdom.

 

ANDRE BLOC

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