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Em busca da história perdida

| Entrevista |Consultor de roteiro do aclamado filme Elena (2012), Aleksei Abib mergulha nas engrenagens das narrativas audiovisuais para dissecar padrões

01:30 | 25/07/2018
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Roteirista, consultor de script e diretor, Aleksei Abib se debruça a estudar as diferentes maneiras de contar uma história a partir do audiovisual. Nos últimos anos, ele colaborou em filmes como Elena (2012), De menor (2013) e Mais Forte que o Mundo (2016). O roteirista está na Capital ministrando oficina no Porto Iracema das Artes, onde também realiza amanhã, às 19 horas, a aula aberta "A engrenagem narrativa de Stranger Things". A entrada é gratuita. Confira entrevista com o pesquisador:

 

O POVO: A que você atribui o sucesso de séries como Stranger Things, que seguem um modelo narrativo de aventura já conhecido pelo público?

Aleksei Abib: Stranger Things tem uma questão inicial que é a novidade do algoritmo. A série foi baseada numa pesquisa interna da Netflix. Eles identificaram que muitas pessoas estavam interessadas nas temáticas vinculadas ao anos 1980 e conseguiram achar essa série que já estava sendo tentada havia sete, oito anos pelos autores. Os canais tradicionais não queriam. Então quando a Netflix identificou essa vontade do espectador de certa nostalgia, ela caiu como uma luva.

 

O POVO: Mas foi preciso inovar em narrativa para funcionar ou a nostalgia foi o suficiente?

Aleksei: Do ponto de vista narrativo, a série, apesar de lidar com elementos já conhecidos, tem uma estrutura muito inteligente que é de trabalhar com protagonista oculto. O principal personagem não está presente ao longo da primeira temporada inteira e, mesmo assim, toda a ação gira em torno dele. Pode parecer simples, mas é uma engenharia de roteiro muito bem realizada. Em casos assim, costumo fazer uma comparação com a Bossa Nova, que soa simples mas, quando você estuda, vê que ela é ultrassofisticada. Apesar das diferenças lógicas (entre o gênero musical e a linguagem audiovisual), o efeito é mais ou menos o mesmo: chegar a um roteiro simples, mas que tem uma narrativa muito sólida por trás.

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O POVO: A Jornada do Herói (técnica criada por Joseph Campbell e usada em filmes como Star Wars e Harry Potter) ainda segue recorrente e eficiente nos produtos da indústria?

Aleksei: Sim, mas existem outros paradigmas e é importante conhecê-los para saber qual deles tem a ver com seu projeto. Esse modelo não pode ser uma camisa de força. Para o George Lucas, por exemplo, funciona muito bem e em Star Wars continua funcionando. O critério mais importante é entender cada paradigma, conhecer quais deles podem servir e como podem ser aplicados. Ou ainda pode se chegar a conclusão que pode usar parte de um paradigma e parte de outro. A série True detective, por exemplo, trabalha o Paradigma das Oito Sequências, o que já marca um novo momento.

 

O POVO: Você foi consultor do premiado Elena. Qual a principal diferença entre esse trabalho e o do roteirista propriamente dito?

Aleksei: Diferencio muito os dois lados. Um ponto que marca radicalmente essa diferença: o consultor não deve escrever de fato, pôr a mão na massa. Ele sugere as ideias, realizá-las já não é mais com o consultor, ou então ele passa a ser coautor. De acordo com Associação Brasileira de Autores Roteiristas (Abra), para fazer parte da equipe de roteirista, você tem quer ter escrito 33% do roteiro. Pode estar toda a equipe conversando, dando ideias, mas o roteirista é o que escreve de próprio punho. No Elena, ajudei a Petra (Costa), trabalhando, inclusive, com a Jornada do Herói, porque cabia, mas quem realizou tudo isso foi a Carol (Carolina Ziskind, roteirista). A função do consultor é apontar fragilidades e potencialidades, conversar sobre os caminhos.

 

O POVO: Você também compôs a equipe do blockbuster Mais Forte que o Mundo. Para um roteirista, como é a negociação entre a ideia/projeto e questões como orçamento e as dimensões de produção?

Aleksei: Para mim, esse é um dos principais aspectos que diferenciam o escritor do roteirista, porque este trabalha sempre dentro de certo limite. Ele está escrevendo para algo que vai ser produzido, já o escritor não tem os limites da produção, não precisa se preocupar em colocar limites nas ideias. Não adianta nada ter uma ideia incrível se minha produção não vai dar conta de fazer. Isso pode gerar uma frustração de os projetos ficarem sempre na gaveta, apesar das ideias boas. Pode ser também que a produção não seja realizada agora, mas anos depois. É o caso do Stranger Things, que os autores tiveram que esperar uma mudança de plataforma do canal a cabo para o streaming.

 

O POVO: O que um bom argumento não pode deixar de ter?

Aleksei: Uma questão que é essencial: contar algo que seja verdadeiro para você, algo muito honesto. Não é simplesmente ver que tal fórmula faz sucesso e tentar seguir. Muita gente foi na esteira de Friends, com essa história de amigos dentro de uma casa, mas todas ficaram parecidas. Querer algo só porque está fazendo sucesso normalmente não se torna um sucesso. Tem uma técnica do Michael Rabiger (roteirista e teórico) que fala sobre você ir mergulhando de cabeça na descoberta do que te move. É buscar o que está fervilhando dentro de você e pensar por que isso tem de ser dividido com o mundo. É importante identificar isso e fazer um mergulho no subconsciente para ter substrato e trazer a história à tona. Também se perguntar: Por que tem que ser você? Por que essa história? E por que agora? 50% dos argumentos do mercado já caem nessas três perguntas. A consciência de por que escrever uma história já é um grande primeiro passo para escrever um ótimo argumento.

 

Aula aberta sobre série Stranger Things com Aleksei Abib

 

Quando: amanhã, 26, às 19 horas

Onde: Pátio do Porto Iracema (Rua Dragão do Mar, 160, Praia de Iracema)

Programação gratuita

 

RENATO ABÊ

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