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Como ser BRASILEIRO

| Música | Ao cantor e compositor Silva apresenta novo disco este fim de semana em Fortaleza

01:30 | 19/07/2018
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O povo que não conhece a própria cultura é um povo que não se enxerga, não se reconhece e não consegue se gostar. É o que diz o cantor, compositor e multi-instrumentista Silva, de recém completados 30 anos e disco novo na praça. Ele acaba de lançar Brasileiro (Slap/Som Livre), álbum que estreita os laços em definitivo com a música feita no Brasil e para o Brasil.

 

São seis anos desde seu primeiro álbum, o excelente Claridão. Veio então Vista Pro Mar (2014), repleto de beats e sintetizadores que ajudaram a formatar sua assinatura. Isso feito, era hora de Júpiter (2015), um disco que, se não soava autêntico como os antecessores, apontava para um artista disposto a fazer as pazes com a MPB.

 

Isso por que Brasileiro vai de Gonçalves Dias a Darcy Ribeiro, em sua primeira faixa: Nada Será Mais Como Era Antes. Um didatismo pautado na esperança em tempos de crise e, principalmente, na importância da leveza no discurso. Sem bater de frente com o viralatismo.

 

"Cresci com essa noção de que o Brasil tem uma diferença social muito grande. Estudei música erudita a vida inteira e nunca gostei desse conceito de música boa ou ruim, e o Brasil é cheio dessas segregações históricas", avalia. "Do pobre e do rico, do preto e do branco. Isso vem de muito tempo. Sempre achei a separação uma babaquice. O brasileiro tem uma autoestima baixa".

 

De carisma reconhecível ao telefone, Silva conta que anda ouvindo muito o maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006) e o "gigantesco", enfatiza, João Donato. Além do reggae setentista, que diz combinar com a música brasileira.

 

Brasileiro tem participação de Anitta e faixas escritas em parceria com Arnaldo Antunes e Ronaldo Bastos. Silva continua também a compor com o irmão Lucas Silva, seu principal parceiro criativo. Eles escreveram sete das 13 faixas do disco. Há ainda uma faixa assinada pelo compositor Dé Santos, além das instrumentais. Tem samba, bossa-nova e até um flerte descompromissado com o axé em A Cor É Rosa, o cartão de visita.

 

E Silva está preparado para ser questionado, como se a leveza carregasse culpa. "Eu quero que a minha musica faça sentido daqui há 10 anos. Então, meu disco tem críticas de forma sutil", diz. "Não vou fazer piada com Temer. Tenho minhas convicções políticas. Sou mais de esquerda mesmo, mas não vou ficar fazendo campanha na minha música".

 

"Pra gente evoluir como nação é preciso se gostar, fazer esse esforço. Não é aquela bobeira de ser nacionalista. Agora fica todo mundo falando que o Brasil é uma droga, mas todo País tem crise. Isso vai passar. O Temer vai passar. Essas pessoas que estão aí no poder fazendo coisas erradas também vão passar", diz otimista. "Mas a música está aí e não vamos deixar a peteca cair. Uma forma boa de ser brasileiro é essa: contribuir pro Brasil melhorar".

 

Bate pronto

 

O POVO - Como tá sendo a estrada após o lançamento do álbum Brasileiro?

Silva - Acho que as pessoas entenderam o recado do disco de uma forma muito legal. Interpretação é uma coisa muito complexa. Cada um interpreta de um jeito. As pessoas levaram de um lado positivo, como eu queria. É um disco leve, e eu tava preparado pra ser questionado por isso. Porque um disco leve nesse momento, sabe? Isso me tem feito muito bem. Esse show tá tipo um coral e isso nunca tinha acontecido comigo.

 

O POVO - Por que fazer diferente com o Brasileiro?

Silva - Tem uma coisa que eu gosto de propor, que é mudar. Eu enjoo muito fácil das coisas. Eu não consigo me imaginar tocando as mesmas músicas por 20 anos. Posso até tocar, mas vou mudar alguma coisa, vou levar pra outro lado. Cada disco é um mundo. Os trabalhos são criações que saem do momento que a gente tá vivendo. Sou muito autobiográfico. Eu tô numa fase boa comigo. Acabei de fazer 30 anos. Estou mais seguro de mim.

 

O POVO - No processo dos discos anteriores, o que o palco te ensinou?

Silva - Aprendi que quanto mais natural você for, mais dá vontade em fazer. Esse exercício da sinceridade, da naturalidade, do momento, é uma coisa que eu tô aprendendo. Tem muita coisa pra gente aprender ainda. Isso me deixa empolgado. Não sou obcecado com fama, sou obcecado com música. Quero cantar melhor, quero tocar melhor, ser melhor no palco. Acho que tô evoluindo e tô atento. Eu passava mal antes de show por causa do medo do palco. Tô muito feliz que me livrei disso, sabe? A maturidade traz isso.

 

Confira a entrevista completa no blog Repórter Entrelinhas

 

RUBENS RODRIGUES

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