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Com gosto de sangue

| Entrevista | O surpreendente longa Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, faz parte da novíssima safra do cinema nacional e estreia no dia 9 de agosto

01:30 | 26/07/2018
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Após restaurante de classe média alta ser invadido por dois ladrões, o dono do local surpreende criminosos, clientes, garçonete e cozinheiro por estar armado, e começa a praticar justiça com as próprias mãos. E a história, que se passa em uma única noite, é tomada por vários embates sociais (empregados x patrão, ricos x pobres, homens x mulheres, brancos x negros) até ultrapassar a civilização e se entregar à barbárie. Não parecem humanos, e sim animais nada cordiais, que se alimentam de sangue.

 

Poderia ser um filme de suspense americano, adorado pelo público, ávido por sangue e sustos. Mas Animal Cordial, que tem estreia marcada para o próximo 9 de agosto nos cinemas, é uma produção nacional, escrita e dirigida por Gabriela Amaral Almeida, em seu debut em longas. Mestra em literatura e cinema de horror pela UFBA (Brasil) e com especialização em roteiro pela EICTV de Cuba, é premiada por seus curtas, já teve aula com Tarantino, em Sundance, e assinou o roteiro do excelente terror nacional, Quando Eu Era Vivo (2014). Após ficar atordoada com Animal Cordial, a cineasta teve uma conversa exclusiva com o V&A.;

 

O POVO: Quais seus filmes de terror prediletos? Eles te inspiram em Animal Cordial?

Gabriela Amaral Almeida: Para o projeto específico do Animal Cordial, eu não tenho uma referência direta, sou influenciada no meu inconsciente por tudo o que eu assisti. O meu filme de terror favorito é O Exorcista (1973).

 

OP: Você considera que o cerne da sua obra é a política?

Gabriela: Eu defendo que toda obra de arte, pelo menos a que me interessa, é política. Pois se você cria personagens que têm uma ligação direta com o contexto em que você está, eles são seres políticos. Não estou falando partidários, mas, sim, seres políticos. São seres que têm bandeiras, que sofrem preconceitos, que têm dificuldade de agir por ser A, B ou C. Portanto, é muito difícil numa narrativa não ter discurso político, mesmo que não seja intencional do escritor colocar esse discurso lá. Sendo assim, sim, acho que minha obra é política, como qualquer obra narrativa que me interessa é.

 

OP: No filme, há diálogos, como "polícia não adianta". Além disto, o protagonista da sua história porta arma e faz justiça com as próprias mãos. Em tempos de polarizações políticas, como você acha que o público vai reagir a isso?

Gabriela: Não tenho a menor ideia. Eu gostaria que, no campo da ficção, pelo menos, e, da maneira como isso é ilustrado de forma expressionista, esse filme facilitasse e permitisse que as pessoas vissem mais claramente o disparate que a gente vive na realidade. A arte serve para isso. Ela destaca e releva, quando ela abranda, a questão faz com que você pense nelas de um ponto de vista humano.

 

OP: Você acredita que o público gosta de torcer para vilão?

Gabriela: Eu acho que os vilões são uma força antagônica e tão poderosa quanto a força do protagonista. Então, sim, eu acredito que os vilões têm de ser tão bem construídos quanto os protagonistas. Não acredito muito na maldade pela maldade. É um sentimento humano, que, na construção de um vilão, tem um porquê de estar ali, e nós, como seres humanos - dúbios e imperfeitos - também carregamos esse sentimento por dentro. Portanto, torcer para o vilão significa reconhecer naquele personagem que age vilanescamente um pouco de nós também.

 

OP: A única coisa que me incomodou foi Murilo Benício. A escalação dele foi uma opção pela faceta comercial?

Gabriela: Absolutamente não. Eu acho o Murilo um grande ator. Ele me foi proposto numa conversa criativa com meu produtor, Rodrigo Teixeira, e a partir do momento em que ele foi colocado na mesa como possibilidade. Nunca como imposição. Eu me animei para escrever justamente o papel para ele. Discordando de você, eu acho a performance dele muito impressionante no filme.

 

OP: O que falta para que a audiência (pelo menos, média) descubra outros gêneros, outras possibilidades no cinemas nacional, e saia da vala comum de que só a comédia fácil que faz sucesso?

Gabriela: É uma pergunta difícil, e acho que, se eu te desse a resposta certa, teria um monte de produtor querendo ouvir. Com relação ao horror, temos uma forte tradição de assistir ao horror norte-americano e eurocêntrico. Ele nada mais é do que um reflexo da sociedade e do tempo em que a gente vive. Acredito que o horror brasileiro está numa época de levantamento das mitologias, bem como dos nossos traços. É muito difícil para o espectador que vai ao cinema esperando a mitologia americana no cinema nacional.

 

DANIEL HERCULANO

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