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Atrás da obra O Lobo

| Exclusiva | Com exposição intitulada Mestre dos Sonhos em cartaz na Capital até amanhã, Francisco Brennand abre brecha em rotina reclusa para conversar com o Vida&Arte. O escultor lança olhar sobre a crítica de arte e revela intimidade com a morte

01:30 | 14/07/2018

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Com fama de recluso, Francisco Brennand não sai tanto dos limites da sua oficina no bairro da Várzea, em Recife. Um dos maiores artistas plásticos do País, entretanto, não se nega a uma boa conversa. Aos 91 anos, tem muito o que dizer. Em entrevista realizada por telefone na quinta-feira, 12, o escultor iniciou os trabalhos festejando o contato com o público que acaba tendo com a circulação da sua mostra, Mestre dos Sonhos, País afora.

"Percorrer o Brasil para mim é de alta significação, porque em geral, com o decorrer do tempo, você é enterrado. Se não estiver na mídia, você está morto", apontou. A exposição, que já passou por Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, fica em cartaz na Caixa Cultura até amanhã.

O POVO - O senhor se diz um antissocial. A reclusão pode afastar, de algum modo, o contato do público com sua obra?

Francisco Brennand - Eu até me dizia recluso, da maneira mais harmoniosa possível, porque eu não insisto em procurar a mídia. Prefiro aquilo que nós supomos ser casualidade. Vou dar um exemplo, ninguém pediu para que o grupo O Rappa, essa banda extraordinária, viesse tocar aqui na oficina de cerâmica. Eles vieram e ainda hoje as pessoas falam disso (o grupo gravou DVD no espaço em 2016). Sem forçar a barra é mais interessante, você sabe que não foi alguma coisa estruturada, simplesmente aconteceu.

O POVO - Suas inspirações para criar são as mais diversas. Desde 1995, por exemplo, você realiza série de obras a partir do conto da Chapeuzinho Vermelho. O que encanta nessa história?

Brennand - Sempre foi matéria de interesse dos próprios psicanalistas. Já existem várias versões além das histórias medievais, que são muito cruas e duras e não são de forma alguma amenizadas por nenhum tipo de sentimentalismo ou romantismo. A Chapeuzinho foi realmente imprudente ao ir para a floresta e isso não deixava de ser uma espécie de aviso, conselho que as mães e os mais velhos dão aos mais jovens e eles não escutam. Posso dizer que nunca os escutei e me dei sempre mal (risos). Ela estava à procura do lobo. Não era ele que foi surpreender e devorar Chapeuzinho. Ela era uma loba também.

O POVO - O senhor interpreta, então, pelo viés da sexualidade?

Brennand - Tem toda uma conexão sexual. Não existe nada na nossa história que não seja sexual. Eu sou uma pessoa profundamente orientada no sentido da sexualidade.

O POVO - Por isso a recorrência de símbolos da nudez e que rementem ao sexual na sua obra?

Brennand - É um tema não só interessante como de grande atualidade. Mas, primeiro de tudo, eu não levo o sentido da sexualidade como brincadeira. Não existe nada mais sério em nossa existência do que a nossa sexualidade. Imperscrutável. Nós não sabemos nada a respeito dela. Tanto que nem ao menos sabemos como denominar a nossa genitália. Estamos sempre por fora, percorrendo a um anedotário infame que se chama pornografia. Mas pergunto, se não fosse a pornografia, como nós sustentaríamos essa nossa combalida sexualidade?

O POVO - Mas o que temos visto no País é uma perseguição aos símbolos sexuais nos museus. O que essa patrulha que barra a nudez representa?

Brennand - Isso vai assim até o fim do mundo, não há como consertar. É uma batalha sem vencidos e sem vencedores: o suposto puritanismo contra aqueles que ferem a ordem, vamos dizer, os libertinos. Nós não sabemos como avaliar as coisas. Há uma frase de um historiador (o inglês Arnold Toynbee) que diz: "O sexo, mais do que a morte, deixa o homem diante de uma perplexidade insanável".

O POVO - Outros símbolos também se repetem no seu trabalho: o ovo, o peixe, a serpente. O senhor criou uma mitologia própria?

Brennand - Tem a criação de certa mitologia e essa convivência com o elemento mitológico me levou a tratá-lo sem cerimônia. Tudo aquilo que me interessava como um elemento que fosse aproveitado plasticamente, vamos dizer, tudo que "que dá quadro" ou "dá escultura", eu me aposso dele e trato o assunto a minha maneira. E aí surgem vários aspectos mitológicos que sobrepõem a toda e qualquer preocupação com o regionalismo.

O POVO - Mas o senhor já criou junto ao Ariano Suassuna. Não seria uma aproximação com esse caráter regional?

Brennand - Na minha juventude, a amizade com o Ariano me levou à certa concessão de elementos regionais. Por exemplo, eu fiz o figurino do Auto da Compadecida, então era uma coisa ligada ao mundo sertanejo, Ariano era um sertanejo, eu sou um homem da Zona da Mata. Ariano nunca viajou à Europa, eu sou um homem que cultivo minhas viagens à Europa. Nós vivemos em universos diversos mesmo tendo sido grandes amigos. Por conta disso, às vezes há algumas confusões. Existem pessoas que me incluem no movimento armorial. Eu não sou absolutamente armorial. Se alguém for falar sobre mim é melhor dizer que Brennand é um artista cuja predominância de sua obra é sexual.

O POVO - Muito se fala sobre a carência de críticos de arte. Qual sua avaliação sobre esse cenário no País?

Brennand - A crítica de arte hoje em dia é dirigida aos jovens artistas e, para mim, é como se estivessem falando grego. Não é por culpa de ninguém, a culpa é minha. Eu sou um artista que trabalha materiais que são utilizados desde a caverna. Eu utilizo a tinta, o pincel à mão. Eu utilizo o barro e hoje em dia a arte é eletrônica. Uma arte que está ligada a uma série de elementos da internet, da televisão, cuja matéria prima já não é aquele que eu utilizo. Os próprios curadores modernos quando estão falando dos seus artistas atuais, seja aqui, seja nos Estados Unidos ou na Europa, no Japão, tem um jeito de falar é compartilhado. É o que chama de arte contemporânea. Eu estou fora e é natural que eu esteja fora, assim como estão fora outros artistas de outras gerações que não é a minha. O João Câmara, por exemplo, um dos grandes pintores brasileiros. O Siron Franco, outro grande pintor. Eles utilizam tinta, pincel e tela, estão dentro daquilo que condiz com o meu entendimento.

O POVO - Mas o senhor acompanha as novas produções?

Brennand - Pendurar uma cadeira a 20 metros de altura é uma coisa que realmente chama atenção e expor isso numa Bienal causa espanto, causa emoção, mas não é exatamente o que eu espero de um evento. Mas também não quero obrigar que a Bienal vá furar suas paredes para pregar quadros. Tem outras formas de manifestação artística que são essas formas contemporâneas de pensar a arte e todas essas coisas misteriosas. O enigma é a palavra que resume tudo. Eu não sou detentor da verdade, nem esses jovens artistas são detentores da verdade, é um enigma.

O POVO - Da arte cearense, o que faz seus olhos brilharem?

Brennand - Ah, ele acabou de falecer. Eu já expus aí no Ceará ao lado dele. Sérvulo Esmeraldo (1929 - 2017), uma admirável figura artística. Ele utilizava novos materiais, mas estava também no meu caminho, ainda nos entendíamos. Sérvulo teve formação europeia, mas não deixou de ter seus vínculos locais. Tanto que tem várias esculturas espalhadas por Fortaleza. É um artista moderno.

O POVO - O senhor já falou, em outras entrevistas, que a arte é uma atividade de risco. Aos 91 anos, que riscos o senhor quer correr?

Brennand - Minha vida está sendo, eu diria, muito longa. Eu diria excessiva, meu pai faleceu com 84 anos, eu já estou com 91 anos. Já estou sentido um excessivo que está beirando o mal gosto (risos). Todo artista deseja sobreviver a sua própria carreira. Ninguém quer dizer: está terminada, posso morrer tranquilo. Não é nada disso. A vida é surpreendente, não há nada que substitua você acordar ainda com o mínimo de saúde e ver uma bela manhã e receber a brisa no rosto, olhar o céu azul com aquelas nuvens enormes brancas, que caracterizam tanto o céu do Nordeste. É como aí em Fortaleza que tem uma luz marcante, crua, branca. Isso é o que ainda me encanta: o mundo com seus enigmas.

Francisco Brennand - mestre dos sonhos

Quando: até amanhã, das 12 às 19 horas

Onde: Caixa Cultural Fortaleza (avenida Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema

Programação
 Gratuito

 

RENATO ABÊ

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