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UFC promove colóquio sobre literatura e erotismo

| PESQUISA | Departamento de Literatura da UFC promove colóquio sobre as questões em torno do erotismo na construção das narrativas da história ocidental

01:30 | 27/06/2018

Começa hoje a primeira edição do Colóquio da Língua de Eros, evento do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC). A programação tem como tema “O lugar do erótico: pesquisa literária em construção” e reúne leituras e questionamentos desenvolvidos pelo Grupo de estudos A Língua de Eros (Gele). De hoje até sexta, 29, as apresentações de trabalhos ocorrem na Sala de Defesa Capitu do Centro de Humanidades, no Benfica.


“A escrita erótica vem para marcar esse lugar de contraversão e de afirmação de si e dos próprios desejos. A partir desse desejo, a gente vai abarcando as questões culturais, sociais, psicológicas, artísticas e estéticas”, aponta Lúcio Flávio Gondim, mestrando em Letras, destacando a problematização entre o erotismo e a pornografia como um dos tensionamentos debatidos. Lúcio é mediador do evento ao lado do também estudante Marcus Matos. Juntos, eles trabalham com a coordenação do professor Claudicélio Rodrigues, doutor em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Segundo Claudicélio, a história da cultura ocidental flerta com o erótico em diferentes frentes. “A literatura, desde a Grécia Antiga, é marcada pela presença do erótico numa tradição que não é desvinculada do sagrado. É uma leitura que não pertence ao corpo somente, mas também ao espírito”, reflete. Para o pesquisador, a “liturgia do gozo, do prazer” acaba sendo porta de entrada para o debate acerca da “interdição” do desejo. “É importante pensar na cultura do erótico como um discurso que rompe com interdito. É uma transgressão ao pensar o sujeito em sua integralidade”.


Os estudos apresentados no colóquio abordam diferentes angulações a respeito do tema. Entre elas, a presença do elemento erótico na literatura infantil de Clarice Lispector, uma análise de personagens de Mia Couto e Caio Fernando Abreu, além de uma reflexão direta com as teorias de Sigmund Freud. “A base do nosso grupo de estudos é a literatura, mas estamos o tempo todo ultrapassando a fronteira do pensamento literário e indo atrás de um reforço em outros campos do saber”, aponta o professor.


Nesse contexto, o evento abre espaço para cruzamentos com a antropologia, a psicanálise, a história, chegando também à teologia. “A religião, quando se fala da cultura ocidental, interditou demais os corpos. A proposta é reintroduzir, pela literatura, esse discurso do erotismo como uma forma de afirmação da vida”, pondera Claudicélio.


O evento joga luz sobre os tabus e censuras que ainda cercam a literatura (inclusive no meio acadêmico) e especialmente quando “não está em conformidade com o sexo procriativo e com a heterossexualidade branca”. Lúcio Flávio aponta: “O erótico é sempre renegado e sempre alocado num lugar de proibido, num espaço de impossibilidade e as artes têm esse papel, quase social, de tratar disso. Não necessariamente de uma forma militante, com uma bandeira única”, pontua, ressaltando que as pesquisas buscam muito mais “a polifonia e os contraditórios” e não uma leitura dominante sobre a temática.


“Esse semestre, por exemplo, o grupo discutiu a literatura erótica negra, a literatura erótica gay, lésbica”, avança Lúcio, estabelecendo os estudos como um contraponto ao “avanço do conservadorismo no País”, conforme faz coro Claudicélio. “Sempre na história, quando houve esse momento de conservadorismo, a literatura se contorceu contra esse tipo de autoritarismo. O grupo de estudos, que existe há dois anos, busca, pelo discurso do erótico, romper barreiras”, completa o coordenador.


Colóquio da Língua de Eros


Quando: de hoje a sexta-feira, 29, sempre das 11h30min às 13 horas

Onde: Departamento de Literatura - UFC (av. da Universidade, 2683 - Benfica)

Programação gratuita e aberta ao público

 

RENATO ABÊ

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