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Novos olhares sobre a arquitetura local

01:30 | 16/06/2018

A arquitetura cearense possui um valor imensurável que merece ser sistematizado, discutido e preservado. O trabalho do meu colega arquiteto Romeu Duarte avança léguas nessa direção pois não se valoriza aquilo que não se conhece. Teríamos muito a ganhar se dispuséssemos de trabalhos semelhantes abordando diversas escalas e olhares. Habitaríamos uma cidade mais humana se debruçássemos o nosso olhar sobre a arquitetura vernacular por exemplo, formada pelo conjunto de edifícios alinhados dentre os quais não é possível a distinção de um elemento, mas apreciar a harmonia do conjunto. Em particular a arquitetura da periferia, com qualidades internacionalmente reconhecidas de inovação, flexibilidade e adaptabilidade, embora ainda considerada ilegal pelas políticas públicas vigentes, e desprezada por programas como o Minha Casa, Minha Vida.


Denominamos erroneamente de “urbanização de assentamentos”, projetos de construção de avenidas que essencialmente destroem o tecido urbano existente e o substituem por um novo, homogeneizado, simplificado e enrijecido. Concebemos e aprovamos projetos como o Veiculo Leve Sobre Trilhos (VLT), que não se relaciona com o entorno existente, pois pressupõe a sua destruição, às vezes vendida como “renovação”. Nem temos informação sobre a conformação urbana dos bairros lindeiros: não interessa aos projetistas olhar para dentro pois já possuem modelos trazidos de fora.


Lembro bem de uma resposta que me foi dada por um representante do Estado quando indagado sobre os impactos do VLT sobre o entorno: “a nossa função é construir o equipamento e não resolver os problemas da cidade”. A frase soa extremamente racional do ponto de vista do governo estadual, cotidianamente cobrado para aplicar os recursos, fazer obras. Entretanto, sob o olhar do usuário da cidade (e não apenas dos moradores atingidos) ela é de uma irracionalidade descomunal e explica grande parte da nossa frustração com a qualidade do ambiente urbano de Fortaleza.


O governo municipal também tem desviado o olhar para a escala urbana, concentrando-se em regular a edificação dentro do lote e abdicando de proteger os espaços públicos e áreas verdes produzidos pelos parcelamentos urbanos. Nós arquitetos fomos treinados para projetar os espaços construídos em suas diversas escalas. A escala da cidade pressupõe diálogo com o cliente: a sociedade civil em toda a sua diversidade. Devemos, portanto, aplicar instrumentos como Estudo de Impacto de Vizinhança, e Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, pois, sem eles, seguimos construindo a Cidade a partir de valores individuais dos projetistas, e criminalizando aquilo que não se encaixa neles.

 

CLARISSA FREITAS

Arquiteta e urbanista

 

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