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Game Detroit: Become Human mistura ficção científica e dramas reais

| PLAYSTATION 4 | Novo jogo da desenvolvedora Quantic Dream atualiza o sci-fi androide com gráficos e narrativas impactantes, além de uma narrativa que agrega dramas bem humanos

01:30 | 11/06/2018

Roger Ebert – famoso crítico de cinema, já falecido – uma vez disse que videogames jamais serão vistos como arte. Para Ebert, a repetição das mecânicas de jogo e a ilusão de autonomia dada ao jogador, dentre outros motivos, sempre colocarão jogos eletrônicos mais próximos de uma mera brincadeira do que de uma entidade artística. Detroit: Become Human, da desenvolvedora Quantic Dream, se propõe a testar essa noção. Com belos gráficos, profundas reflexões e uma dinâmica de interação fluida e realista, é um dos exclusivos de Playstation 4 mais interessantes de 2018.


Aguardado por fãs do console da Sony desde que os rumores sobre seu desenvolvimento vazaram na mídia, em 2013, Detroit traz uma intriga policial de ficção científica, retratada no ano de 2038. Envolvendo um trio de protagonistas com características e motivações próprias, porém interconectadas – já que os três são androides –, cabe ao jogador avançar suas estórias separadamente, levando a revelações surpreendentes e a um desfecho de enredo digno de filmes como Blade Runner: O Caçador de Androides.


Cada linha narrativa trazida pelos protagonistas aborda temáticas relevantes, mesmo fora do contexto dos videogames. Kara é uma androide doméstica que experiencia cenas de abuso entre a pessoa que a adquiriu, um alcoólatra violento, e sua filha indefesa. Já Connor, foi construído como detetive para desvendar uma conspiração criminosa, perpetrada aparentemente por seres robóticos como ele. Por fim, Markus traz em seu enredo um arco de queda e redenção comovente, digno de Orfeu, incluindo várias referências à obra clássica em uma roupagem tanto futurista quanto igualmente dramática.


Outro ponto de destaque em Detroit: Become Human é o seu sistema de decisões e consequências, que torna única cada aventura iniciada por quem o joga. No maior estilo Você Decide – clássico televisivo dos anos 1990 – em momentos durante a jogatina são apresentadas escolhas que, ao serem feitas, trazem repercussões irreversíveis e impactantes na narrativa principal do jogo. Um simples exemplo é a cena inicial do game, em que Connor – o detetive androide sob o comando do player – deve resolver uma tensa situação de refém. A depender do conjunto de escolhas feitas em pontos chave, o personagem pode tanto salvar a vítima, como deixá-la morrer e, até mesmo, ser assassinado pelo criminoso que buscava deter. Sim, é possível perder um dos personagens principais antes do videogame acabar.


Detroit é repleto de momentos de ação e apreensão dignos de bons sci-fis, como Minority Report ou A.I. - Inteligência Artificial. A aproximação do título com um longa metragem é ressaltada pelo exímio cuidado com a cinematografia presente em cada cena apresentada. Infelizmente, a experiência de jogá-lo não consegue ser tão satisfatória quanto a de assistir o desenrolar dos seus arcos narrativos. E esta é a sua maior fraqueza.


O controle de certos movimentos do jogo é feito através do pressionar de botões ou do mover do próprio gamepad em instâncias específicas e que acontecem, muitas vezes, rápido demais. O jogador fica, então, em um mix constante de prazer e tensão que, por vezes, o impede de ter um bom aproveitamento da estória tocante que o game traz. Tal demérito não chega a estragar o divertimento presente em Detroit, mas é ainda um obstáculo que games como ele precisam superar a fim de aumentar a imersão do sujeito no mundo virtual criado.


Fãs de videogame vêm crescendo junto com o próprio mercado e, vendo-o evoluir e amadurecer assim, com eles próprios, crescem e amadurecem. A entrega de um contexto lúdico e interativo, em que um personagem quase abstrato salta e cai na cabeça de seus inimigos a fim derrotá-los já não é suficiente para jogadores que querem experiências cada vez mais desafiadoras e marcantes. É possível que jamais tenhamos Super Mario em um console da Sony, mas é certo afirmar que com Detroit: Become Human o Playstation 4 aproxima em mais um passo a evolução da mídia gamer em direção ao status de arte.


(Davi Rocha é professor, publicitário e produtor de conteúdo do canal Bacontástico)

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