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Crítica: Filme "As Boas Maneiras" trânsita bem entre gêneros

01:30 | 05/06/2018
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Quando As Boas Maneiras, com estreia marcada para a próxima quinta-feira, 7, teve a sua sessão fechada para críticos no último Festival do Rio, vários apontaram a obra como uma mistura de Almodóvar %2b Jacques Tourneur David Cronenberg Marco Drutra e Juliana Rojas. A confusão pode ser resumida de forma simples: o primeiro é conhecido por seus filmes que trazem desconforto; o segundo é associado ao terror de sugestão; já Cronenberg é lembrado por mudar o modo de se pensar o gênero; e a última dupla é formado por alguns dos melhores diretores brasileiros atualmente e que, felizmente, estão filmando horror no País.


De fato, essa é a receita perfeita para que As Boas Maneiras ganhe pernas próprias, ainda que tenha um pouco de Tim Burton, Roman Polanski e Quentin Tarantino no recheio. Essa mistura ocorre quando Ana, uma mulher rica, contrata Clara, uma mulher, para ajudar na faxina da casa e para cuidar do bebê que a primeira está para ter. Em outras palavras: é um filme de apartamento, como aqueles que Polanski dirigia nos anos 1960 e 1970 (O Bebê de Rosemary e O Inquilino).


Para além das referências, os diretores apresentam uma série de elementos sobrenaturais que ajudam a contar a história, sendo colocado de maneira pensada, e não aleatoriamente. Os próprios créditos iniciais com o título em papel de parede oferecem uma sensação de obra fabulesca. A casa de Ana, por exemplo, apresenta sutilmente esses elementos, como a caixa de música, a iluminação da lareira e as janelas que mostram uma cidade de São Paulo gótica, quase que fictícia por tamanha fantasia.


Com tais elementos, é perceptível um trabalho de direção de arte fantástico, que não é só bonito, como também conta a história e nos engana para o susto que se aproxima. É uma técnica que traz desconforto e momentos grotescos.


Essa mesma técnica, em um momento necessário para o filme, emula um Tarantino em Kill Bill, quando muda de um gênero para o outro com o apoio de animação ou da música que toca ao fundo. Além disso, o som é intenso na medida exata, o que oferece situações de silêncio e barulho total, como na cena que remete ao Alien: O Oitavo Passageiro. É uma sequência tensa desde já, mas que, com o apoio do silêncio, assusta quando a música aumenta.


O filme, além de tudo, fala de diferenças de classes e de amor de uma mãe para com o seu filho. Algo que pode ser dito em grande maioria dos gêneros, inclusive no musical, já conhecido por Juliana que fez o excelente, mas pouco conhecido, Sinfonia da Necrópole. Do mesmo modo que Marco, com sua técnica emulando um Hitchcock de Vertigo, apresenta momentos incômodos de tensão, apesar de também falar sobre amor, como já tinha feito em O Silencio do Céu. Espera-se que o novo longa possua mais salas que os filmes anteriores feitos por eles.


As Boas Maneiras dá sequência a uma série de filmes de horror que precisam ser vistos. O Brasil continua lá, inclusive na criatividade de misturar os gêneros em um filme só.

 

 

 

 

GABRIEL AMORA

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