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As conexões entre Frida e os mestres da tradição no Ceará

| FRIDA KAHLO | A jornalista Izabel Gurgel dá sequência aos seus escritos sobre a artista mexicana. Hoje, ela fala sobre as conexões entre Frida e os mestres da tradição no Ceará

01:30 | 02/06/2018
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Frida para olhar ao redor. E ver longe. Termina assim o texto anterior (ver link ao lado), sobre o acervo acerca da pintora mexicana Frida Kahlo (1907 - 1954) que o Plebeu Gabinete de Leitura guarda no Centro de Fortaleza. A biblioteca como uma estação de embarque, a acolher partidas e chegadas, também ancoragem, pouso, desvio, mudança de rota, sempre com possibilidades em aberto de conexão. A leitura como viagem emerge desde cedo na experiência de uma leitora, de um leitor.


Se estudos críticos, biográficos, como os de Andrea Kettenmann, Carlos Monsiváis, Martha Zamora, Raquel Tibol e Teresa del Conde nos levam, por exemplo, a desenhar mapas imaginários de territórios reais vividos por Frida na Cidade do México, onde nasceu e morreu, vivendo aí a maior parte de sua vida, também cutucam com vara curta os bichos geográficos que somos, ainda que de contidos deslocamentos físicos. A cada vida de leitora, de leitor, a cada uma corresponde uma miríade de mapas, de percursos, de visitações, de ímpeto para andar a esmo, para se deixar levar, de guias e roteiros para travessias que se realizam no tempo denso da leitura, bem maior do que o tempo do ato de ler.


É assim que o livro El ropero de Frida, publicado em 2007 no México e sem edição no Brasil, pode remeter à Oaxaca, onde nunca estive fora da leitura, ou me fazer andar pelo Ceará a querer ver renda ao tempo que escuto as rendeiras, como fez a professora Valdelice Carneiro Girão, cujo livro Renda de Bilros - Coleção do Museu Arthur Ramos o Plebeu guarda como o que é: joia rara a edição de 1984. A pesquisadora esperou mais de dez anos para ver a obra publicada. E aí o inventar livros, fazê-los, a nos lembrar uma canção de carnaval: “nossa dor, meu amor, é quem balança o chão da praça”.


A maestria dos saberes têxteis dos mundos que chamamos México faz do livro sobre o guarda-roupa da artista um quase cinema, road movie. O que, de súbito ou de vagar, me instala entre as páginas d’O Livro dos Mestres, a admirável sucessão de retratos e vistas de homens e mulheres dos quatro cantos do Ceará, brincantes e fazedores cuja liga é com a produção da alegria. É a fotografia do Jarbas Oliveira, que há mais de 30 anos percorre o Ceará. O livro, de 2017, é organizado por Dora Freitas e Sílvia Furtado. A cor feito matéria. A vida como uma oferenda compartilhada. Em dias festivos no Plebeu - ainda mais no estado de exceção que vivemos - O Livro dos Mestres fica sempre exposto. Ao alcance dos olhos, um convite para as mãos. A alegria é a prova dos 9.


El ropero de Frida e Frida Kahlo - Suas fotos, publicado em 2010, são livros que se tornaram possíveis depois da abertura do banheiro da Casa Azul, atual Museu Frida Kahlo. O que ficou guardado por 50 anos no banheiro e em outros espaços da casa? Mais de 5 mil fotos, cerca de 300 peças de roupas, calçados, acessórios, coletes ortopédicos, medicamentos, etc. Como foram parar ali? Quando da morte da mulher com quem se casou duas vezes, o pintor Diego Rivera (1886-1957) separou objetos para compor um museu sobre ela. E guardou os demais pertences. Recomendou que fossem abertos - o banheiro, as caixas - 15 anos depois da morte dele. Talvez só o tempo opere bem com a morte. A casa abre como museu em 1958. O banheiro só foi aberto em 2004.


Os materiais encontrados foram catalogados. Constituem, então, um arquivo de acesso público. Como as cidades, os acervos são bens públicos. Os de Frida são arquivos com endereço certo e destino a se desenhar com as perguntas que o tempo, sempre ele, nos incita/impele a fazer. O que reafirma o provisório/transitório do que se conhece sobre o que quer que seja. Uma peça de seda da China, uma bolsa de palha da Guatemala, os brincos feitos por Picasso. Algodão e veludo, rendas e bordados, artesania e indústria de quermesse, metros e metros de coisas de armarinho, alta costura. Hierarquias que Frida editava sem cessar, como faz toda leitora, todo leitor, com os textos que lhe caem às mãos. A leitura é uma escuta. Uma ilha de edição imparável.


IZABEL GURGEL

ESPECIAL PARA O POVO

vidaearte@opovo.com.br

 


Izabel Gurgel é jornalista e e pesquisadora da obra de Frida

 

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Plebeu Gabinete de Leitura

Onde: Rua Floriano Peixoto, 735, 5º andar - Centro

Quando: Aberto de segunda à sexta das 13h às 17 horas para consulta e leitura no local. Não realiza empréstimo. Telefone: 3226.6787

 

GABRIELLE ZARANZA

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