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Nova novela da Globo gera polêmica com elenco reduzido de negros

| SEGUNDO SOL | Nova novela da faixa das 21 horas gera polêmica por ser ambientada na Bahia e ter número reduzido de personagens negros

01:30 | 14/05/2018
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A novela que estreia hoje na faixa das 21 horas, Segundo Sol, fez reacender um questão que, vez por outra, retorna para o circuito da televisão brasileira: a ausência de atores e atrizes negras nas produções. Logo que foi anunciado o elenco, vieram as contestações: como um corpo de intérpretes majoritariamente branco daria vida à Bahia, um estado onde 76% dos habitantes se declaram pretos ou pardos?


Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino Americana pela USP, explica que a verossimilhança “se dá por uma sutil junção entre a imaginação do autor e a realidade”. É quando o criador monta uma trama tão bem elaborada que, mesmo tendo consciência de que ali está uma ficção, o público acredita nas personagens e na história.


Julio Cesar Fernandes, professor da pós-graduação em Produção Transmídia da Faculdade Cásper Líbero, afirma que causa estranhamento a ausência de personagens negros em qualquer história que se passe no Brasil. “É sim uma falha grande que vem sendo suprida ao longo dos anos, isso é fato, mas ainda caminha muito pouco, estamos engatinhando nesse sentido”.

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Ele lembra que a primeira protagonista negra global foi escalada em 2003, há apenas 15 anos, quando Taís Araújo viveu a personagem Preta em Da Cor do Pecado. É um movimento recente, pondera Julio, contabilizando que a televisão brasileira tem 60 anos. A atriz, aliás, foi cotada para ocupar o papel principal de Segundo Sol, mas recusou e foi substituída por Giovanna Antonelli, que fará par com o ator Emílio Dantas. Na história, ele vive Beto Falcão, um cantor de axé em decadência. Falido, ele por pouco não embarca em um avião que cai. Todos pensam que o protagonista está morto enquanto ele se esconde para que a família continue faturando com a suposta morte.


Mayara Magalhães, doutora em Sociologia e produtora cultural, acredita que o realismo da teledramaturgia está muito mais comprometido com estratégias de mercado do que com um desejo de retratar o Brasil em sua diversidade. “Afirmaram que as atrizes Taís Araújo e Camila Pitanga foram convidadas, mas que no momento elas não estavam disponíveis. Argumentaram ainda que para garantir a audiência o elenco principal deve ser formado por estrelas já consagradas. Particularmente não sei até que ponto este argumento se sustenta, pois em outras ocasiões atores como Reynaldo Gianechini, Malvino Salvador e a atriz Camila Queiroz, na época desconhecidos pelo grande público, estrearam na TV como personagens principais”, diz.


Dos 26 nomes que compõem o elenco da nova novela das 21 horas, apenas três são negros: Dan Ferreira, Fabrício Boliveira e Roberta Rodrigues. Mauro Alencar pondera que “não é exatamente o número de personagens de um determinado biotipo que determinará o seu entorno; e sim a sua representatividade dentro da ação”. Não basta apenas uma quantidade de intérpretes, é necessário que eles também tenham destaque nas tramas.


“Eu, por exemplo, conheci Zezé Motta em personagem que servia cafezinho para os patrões m Supermanoela, de 1974. Atualmente, um capítulo exemplar de O Outro Lado do Paraíso, durante o casamento de Bruno (Caio Paduan) e Raquel (Érika Januza), contou com forte presença da mesma Zezé Motta (no papel de Mãe do Quilombo)”, aponta Mauro.


Após a repercussão do caso, a Rede Globo lançou uma nota afirmando que “estamos atentos, ouvindo e acompanhando esses comentários, seguros de que ainda temos muita história pela frente. De fato, ainda temos uma representatividade menor do que gostaríamos e vamos trabalhar para evoluir com essa questão”. A emissora lembrou que as manifestações estão baseadas na primeira fase da novela, “que se concentra na trama que vai desencadear as demais”.


Julio Cesar explica que as telenovelas realizam um movimento de retroalimentação. “A teledramaturgia reflete o que acontece na sociedade e a sociedade se espelha no que vê nas novelas”, pontua, lembrando que esse fator faz ser importante a presença de diversas etnias e credos. “Eu venho dizendo que a televisão está na era da identificação, não mais idealização. Antes a gente idealizava ser alguém da televisão, ser rico como o personagem rico da TV. Isso mudou. O público quer se ver identificado, se ver mais”, pontua.


Segundo Sol

Quando: hoje, 14, às 21h20min

ISABEL COSTA

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