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Livro conta a história do filme Padre Cícero, Os milagres de Juazeiro

| BIOGRAFIA | Livro de Raymundo Netto recria a história do filme Padre Cícero, Os milagres de Juazeiro, primeiro longa colorido produzido no Ceará com ares de superprodução

01:30 | 16/05/2018

Existe um silêncio em torno do filme Padre Cícero, Os milagres de Juazeiro. Lançado em 1976, a obra do estreante Helder Martins de Morais tinha ares gloriosos, com artistas de renome, orçamento grandioso, apoio da Embrafilme, tecnologia importada e gerou grande expectativa. Curiosamente, o tempo passou, os responsáveis pelo trabalho quiseram apagá-lo de suas biografias e um esquecimento envolveu o filme que contava a história de um dos vultos mais fortes, importantes e polêmicos da história cearense.

Uma parte dessa cortina de fumaça que se ergueu em torno de Padre Cícero começa a ser soprada de lado. Escrito por Raymundo Netto, o livro Padre Cícero, O Filme (Fundação Demócrito Rocha) resgata a memória deste que foi o primeiro longa metragem colorido produzido no Ceará. A partir de entrevistas com atores, figurantes, técnicos e moradores da pequena Rosário, distrito de Milagres, a 473 km da capital cearense, a pesquisa vem desde a ideia de levar aos cinemas a história do religioso, passa construção de um imenso aparato técnico para a realização até chegar à desilusão com a obra finalizada. Além da “biografia”, Padre Cícero, O Filme traz a íntegra do roteiro original, escrito por Helder Martins de Moraes.

Com lançamento oficial durante o Festival Vida&Arte, o livro, que inaugura a coleção Memória do Audiovisual Cearense, acompanha uma reprodução do pôster original, desenhado pelo artista plástico gaúcho José Luiz Benício, que também ilustrou filmes como O Beijo no Asfalto, Dona Flor e Seus Dois Maridos e vários dos Trapalhões. Padre Cícero, O Filme também vai ser vendido num kit-estojo que inclui a íntegra do filme de 1976 – e o trailer veiculado na época – e um documentário sobre a produção. Uma prévia do projeto vai ser apresentada hoje, 16, às 16 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste.

“Patriarca do sertão”, “O apóstolo rebelde”, “Taumaturgo do Nordeste” e “Os milagres de Juazeiro” foram alguns subtítulos que acompanharam Padre Cícero, que contou com Jofre Soares no papel principal. “O Jofre tinha o sonho de viver o Padre Cícero”, lembra Elvira Sá de Morais, produtora executiva do filme e filha de Francisco Martins de Morais, empresário cearense que foi convencido por Helder Martins, seu primo em terceiro grau, a investir na produção. “Meu pai era incorporador. Fundou o Icaraí na década de 1960 e ganhou muito dinheiro. Ele vendeu o que hoje é a Tabuba para um grupo do Rio de Janeiro, ganhou muito dinheiro e investiu no filme”, continua.

O investimento foi alto e contou com um (bem pago) elenco de peso. Além de Jofre, Padre Cícero teve José Lewgoy, Nildo Parente, Dirce Migliaccio, Rodolfo Arena e Ana Miranda, esta no papel da beata Maria de Araújo. A esses nomes, acrescente Walden Luiz, Haroldo Serra, Ricardo Guilherme e Nirton Venâncio e outros em seus primeiros trabalhos no cinema. “O Roberto Farias (diretor, irmão de Reginaldo Faria) pediu pra ser o diretor, mas meu pai tinha dado palavra para o Helder”, acrescenta Elvira, sem negar que é aí onde se encontra o ponto fraco do filme.

Se Helder Martins tinha pouco conhecimento de cinema, tendo produzido alguns poucos documentários, Francisco Martins não tinha nenhuma. Helder fez uma profunda pesquisa sobre o personagem e escreveu um roteiro retilíneo, baseado em fatos. “A meu ver, o filme deixa a desejar no roteiro, na direção. A figura do Padre Cícero mexe com o sagrado, a paixão e o filme ficou muito centrado no julgamento pela igreja. Ele não tira o espectador da cadeira”, avalia Elvira contando que o fracasso de bilheteria rendeu um prejuízo vultuoso para o pai, que, tempos depois, se desfez de todos os objetos que estavam guardados, como equipamentos e figurinos.

Por conta dos infortúnios, Padre Cícero, Os milagres de Juazeiro tornou-se uma lembrança pouco acessada na cinematografia cearense. Francisco Martins passou um tempo sem querer falar da sua participação no trabalho. Ele faleceu em 8 de setembro de 2000, aos 78 anos. “Aqui pra nós, o filme foi um desastre”, comenta Elvira. “Mas minha sensação, agora, é de muita satisfação pelo trabalho do Raymundo Netto. Meu pai, onde estiver, vai ficar resgatando a importância dessa história. Vai ficar um registro muito importante”.

SERVIÇO

 

Apresentação de Padre Cícero, O Filme

Quando: hoje, 16, às 16 horas.

Quando: Centro Cultural BNB (r. Conde d'Eu, 560 - Centro)

Telefone: 3209 3500

Entrada franca

MARCOS SAMPAIO