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Grande Sertão: Veredas, dirigido por Bia Lessa, chega a Fortaleza

| TEATRO | Transposição do clássico de Guimarães Rosa para os palcos, a montagem de Grande Sertão: Veredas mescla artes cênicas e visuais

01:30 | 23/05/2018
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“Quando o amor é negado, imediatamente o homem se embrutece”, destaca, em entrevista ao O POVO, o ator Caio Blat. A afirmação do artista diz respeito ao jagunço Riobaldo, personagem dele em Grande Sertão: Veredas, montagem dirigida por Bia Lessa e que está prestes a desembarcar no Theatro José de Alencar. A fala, porém, também revela muito da contemporaneidade de quem vive “num país com muitas feridas abertas”, como aponta Caio.


“Essa obra é infinita e está sendo reinventada o tempo todo. É só lembrar que o Brasil permanece em estado de guerra e é também o país que mais mata transexuais no mundo”, pondera o ator. Transposição cênica dos escritos de Guimarães Rosa (1908 – 1967), a peça faz curtíssima temporada na Capital no fim de semana.

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Uma das mais importantes encenadoras do País, Bia Lessa estava afastada dos palcos havia 10 anos, período no qual desenvolveu múltiplos projetos – como curadora, cineasta, escritora e até carnavalesca. Fazendo eco à fala de Caio, Bia diz ter escolhido o livro justamente pelas infinitas possibilidades oferecidas por uma das maiores obras literárias do País no século XX. “Como eu ia passar seis, sete meses dedicada a algo, queria que fosse algo que valesse realmente a pena. Quis que fosse um Guimarães, que me propõe uma dificuldade. Mesmo que o resultado não acontecesse, o processo valeria a pena”. O resultado veio e com sucesso de público e de crítica (a peça venceu o prêmio APCA de Melhor Direção).


Além de Caio, o elenco traz Luíza Lemmertz, Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin, José Maria Rodrigues, Balbino de Paula, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian e Clara Lessa. Em cena, o público acompanha a saga de Riobaldo, que atravessa o sertão para combater seu maior inimigo, Hermógenes. Nesse ambiente embrutecido, ele descobre o amor pelo companheiro de luta, Diadorim.

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“Foi um processo muito rico, em que todo mundo fazia todos os papeis. Diadorim foi interpretado por homens e mulheres. Quando entrei (no personagem) peguei o que tinha de mais masculino em mim. Guimarães, de fato, escreve sobre um romance homossexual, por mais que se descubra que ela é mulher. Ali é um homem amando outro no meio de um bando de jagunços bravíssimos”, analisa a atriz Luíza Lemmertz, cuja atuação também dá conta de outros personagens em cena.


Caio evidencia ser a dramaturgia muito atual nas temáticas sobre sexualidade, gênero e preconceitos. “O amor bate ali de uma forma impossível de resistir, tem uma relação direta entre o desejo reprimido e a guerra. Riobaldo está o tempo inteiro agoniado pelo amor irrealizável e, por isso, mergulha na guerra, apodrece na matança”, reflete. Além da atualidade, Caio elogia a força poética da narrativa de Guimarães. “Ele perverte a língua e isso muda a forma como (o espetáculo) é narrado. É sublime, um privilégio para qualquer ator”, diz.

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Luiza pondera outras dimensões evocadas nessa transposição livro-palco. “Tem muita gente que não consegue ir à frente na leitura por causa dessa linguagem tão complexa. Guimarães em voz alta acaba materializando outras questões, você vai entrando no ritmo, a escrita dele tem uma musicalidade”, afirma a atriz.


“Uma das coisas geniais do Guimarães é a ideia da divergência, o amor pelo diferente. Conviver com o outro sem catalogar é fundamental nesse momento que a gente vive não só no País, mas no mundo”, reflete a diretora. “Ele coloca o homem dentro do espaço do homem, nem maior, nem melhor que o bicho, a planta. Tem uma ideia ecológica que fala de coexistência”, avança.


Grande Sertão Veredas

Quando: sábado, 26, às 20 horas, e domingo, 27, às 19 horas

Onde: Theatro José de Alencar (R. Liberato Barroso, 525 - Centro)

Quanto: de R$ 40 a R$ 120

Telefone: 31012583


RENATO ABÊ

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