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Exposição apresenta três projetos do artista Vítor César

| EXPOSIÇÃO | Alguém que organiza o espaço ao seu redor, em cartaz a partir de hoje na Sem Título Arte, apresenta três projetos do artista Vítor César. O mestre em Artes Visuais Enrico Rocha comenta a obra

01:30 | 14/05/2018
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O trabalho do Vitor Cesar é tantas vezes responsável por manter meu interesse pelo circuito de artes. Digo o circuito e não as artes, pois com essa última palavrinha eu compreendo algo que se avizinha da nossa vontade de inventar a vida com liberdade, e disso eu não posso abrir mão. Já o circuito de artes, ainda que muitas vezes afirme seus fundamentos nessa mesma vontade, nem sempre reconheço se apoiar nela. Muito pelo contrário, faz dela uma norma e, consequentemente, um instrumento de dominação. E diante dessa situação, tão frequente nesse nobre circuito, sempre penso em abandoná-lo.


Então chega o Vítor e me apresenta questões importantes de uma forma que não existiriam em outro ambiente. Seu trabalho, inseparável do circuito de artes, me aponta que há algo entre nós que somente se mostra enquanto investigação sobre a sua própria forma, que não se apresenta com clareza em um artigo de jornal ou em uma tese, que não se anuncia inteiramente em uma tribuna, em um altar ou em uma manifestação. O trabalho do Vítor me convida a transitar pelo circuito de artes, compreendendo-o como um ambiente que nos apresenta as condições necessárias para que as formas sejam percebidas com atenção, um ambiente que permite que a experimentação formal também o torne evidente e, assim, possibilite transformações.

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Hoje, o Vítor abre uma exposição individual e nos convida a olhar mais uma vez para o circuito de artes em Fortaleza como esse ambiente interessante. Aliás, esse também é o propósito da Sem Título, espaço dedicado à produção de arte contemporânea que já se tornou imprescindível na Cidade. Os três projetos que fazem parte da exposição investigam as relações com a forma entre questões relevantes no atual contexto social. Buscam uma medida justa: desenvolver formas simples de apresentação que sejam também capazes de abrigar a complexidade das questões. Entre os três projetos, estão em evidência a relação entre Estado e cultura, as disputas territoriais nas cidades e a trama entre linguagem e política. Nos três projetos, estão em evidência o fato de que as questões se produzem esteticamente e de que sempre estão condicionadas a uma forma. Além da discussão de assuntos relevantes, mas completamente implicado com ela, o trabalho do Vítor trata da compreensão da experiência enquanto linguagem.


A provocação que anuncia a exposição é clara, ainda que guarde certa ambivalência. “Alguém que organiza o espaço ao seu redor”. Há, de todo modo, o fato que alguém organiza o espaço. Essa afirmação será evidente no espaço
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da galeria, organizado pelo próprio artista, mas também é possível perceber nas páginas deste jornal, que se organizam segundo um projeto editorial. Há pouco, nos referíamos ao ambiente do circuito de artes, onde há muita energia investida em sua organização. Em última instância, permanecerá a dúvida se o espaço, aquela abstração que se confunde com a matéria e o tempo, também foi organizado por Alguém ou é o próprio espaço o sujeito da sentença, que se auto organiza ao acaso. Resta-nos, em todos os casos, e penso junto com o trabalho do Vítor, ocupar os vincos da linguagem e, de alguma forma, experimentar aquela mesma vontade insistente e irrecusável de inventar a vida com liberdade.

 

Enrico Rocha, mestre em artes visuais e etc-artista.


ENRICO ROCHA

ESPECIAL PARA O POVO

vidaearte@opovo.com.br

 


Alguém que organiza o espaço ao seu redor

Quando: até 22 de junho (de segunda à sexta, das 10 às 19 horas, e aos sábados, das 11 às 17 horas)

Onde: Sem Título Arte (Rua João Carvalho, 66 - Aldeota)

Gratuito

 

GABRIELLE ZARANZA

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