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Especialistas discutem a importância de temporadas maiores no teatro

| FORMAÇÃO DE PÚBLICO | Representantes do universo do teatro em Fortaleza discutem a importância da ampliação das temporadas de espetáculos locais como estratégia para a fidelização de novas audiências

01:30 | 14/05/2018
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Quando o assunto é regularidade de apresentações teatrais, os centros culturais da Capital não oferecem cardápio variado aos fortalezenses. É raridade por aqui um grupo artístico conseguir se manter, por semanas, em cartaz com uma peça — modalidade comum em outras praças, especialmente no Sudeste. Com pouco tempo em exibição, os trabalhos perdem um fator determinante para o sucesso de público: o boca a boca. Quando uma obra começa a ser comentada, já não está mais em cartaz.


“O teatro já sofre por não ter inserção em meios de comunicação como a televisão, então, a Cidade demora a ficar sabendo das peças. Fortaleza acaba não vendo os seus espetáculos, porque passamos duas semanas num centro cultural, mais duas em outro e o público não consegue acompanhar”, analisa Raimundo Moreira, diretor artístico e ator da Cia. Prisma de Artes há três décadas. Na contramão desse modus operandi, o grupo está realizando, nos meses de maio e junho, uma temporada mais longa do espetáculo Putz, a menina que buscava o sol no Teatro Dragão do Mar.

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Segundo Rogério Mesquita, curador de teatro do Centro Dragão do Mar, o equipamento inicia agora empreitada para pensar modelos mais amplos de exibição. “Na verdade, eu entrei no Dragão para pensar essas longas temporadas. No Fórum Cearense de Teatro já estamos debatendo há um tempo que um mês não é o suficiente para o potencial de uma boa produção como as que temos aqui. O boca a boca é fundamental para agregar novos públicos”, afirma, destacando a importância de furar a bolha da plateia costumeira de artes cênicas. Rogério antecipa que, em julho e agosto, o grupo Expressões Humanas apresentará espetáculo nesse novo modelo de ocupação.


A atriz e produtora Monique Cardoso aponta a importância de uma cadeia mais integrada entre os diferentes atores de uma realização cênica. “É um trabalho de formiguinha que envolve os artistas, os grupos que estão produzindo, os equipamentos, os gestores. Temos de pensar conjuntamente estratégias para que as nossas obras se mantenham vivas por mais tempo e dialoguem com públicos distintos”, diz, evidenciando ser o teatro um segmento de “transformação social, humana e também econômica”.

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Monique faz contraponto com espetáculos nacionais apresentados em espaços como o Teatro Riomar e Theatro Via Sul. “Ficamos sempre no mesmo nicho de público, que são as pessoas que estão no nosso Facebook. O público diversificado acaba não tendo acesso à produção cearense como tem às produções que estão nos teatros de shopping”, lamenta. “A produção cearense em artes cênicas tem uma produção muito rica, mas eu acredito que a gente precisa pensar na profissionalização desse campo no sentido da gestão, da produção”.


Além de ressaltar a importância das longas temporadas para o público, Graça Feitas, diretora do Grupo Formosura, destaca o ganho para os próprios grupos. “Isso possibilita o amadurecimento das nossas experiências estéticas. Aliás, é necessário que os grupos de teatro possam manter um repertório em constante atividade. Manter um repertório em atividade é estar em cartaz de forma sistemática e não apenas eventualmente”, completa.


“A dificuldade de pauta e patrocínio financeiro para temporadas mais longas torna todo o processo de produção, muitas vezes, desanimador, considerando o volume de trabalho para chegarmos à estreia. Nossos projetos exigem um trabalho criativo que demanda tempo, investimento de vários anos”, pondera o produtor Allan Deberton, que nos últimos anos tem conseguido dar ânimo ao mercado de musicais na Capital. “Os custos de pauta em grandes teatros comerciais são inviáveis e, os teatros menores, mais acessíveis, tem políticas de programação específicas que inviabilizam uma temporada”, completa o realizador de sucessos de público como Avenida Q ou A Hora da Estrela - O Musical.


No caso do espetáculo Putz, a menina que buscava o sol, Raimundo Moreira reforça ainda o público primeiro ao qual a obra se direciona. “Um espetáculo infantil é essa primeira formação de plateia. Com a regularidade, os pais conseguem estabelecer o hábito de ir periodicamente e a criança vai se habituando ao teatro. A família sabe que naquele horário naquele local vai ter espetáculo”, aponta.


Putz, a menina que buscava o sol

Quando: sábados e domingos de maio e junho, sempre às 17 horas

Onde: Teatro do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Quanto: R$ 10 (inteira)

Telefone: 3488-8600

 

RENATO ABÊ

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