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| SUSPENSE | Um dos grandes clássicos de Alfred Hitchcock, Um Corpo que cai segue instigante aos 60 anos, tanto pela temática como pelas inovações técnicas

01:30 | 21/05/2018

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Vertigem que sobrevive ao tempo

 

Há 60 anos, no dia 9 de maio, Vertigo (ou Um Corpo que Cai, como foi chamado no Brasil), teve uma sessão de estreia em São Francisco, na Califórnia. No fim do mesmo mês, ele estreava no resto do País e somente em julho no Brasil, algo raro para a época, dado que os filmes demoravam nove meses para serem lançados por aqui.


Já em 2014, eu tive o prazer de conferir o filme em uma sessão especial realizada no Dragão do Mar. Posso afirmar que foi extraordinário. Mesmo sabendo de tudo, o filme ainda conseguiu me surpreender por tamanho esmero do diretor. Isso só acontece com obras que sobrevivem ao tempo.

 

O longa dirigido por Alfred Hitchcock, desde cedo, foi considerado uma experiência única para os amantes da sétima arte. A genialidade do diretor impressionou a quase todos, já que ele havia criado a técnica da câmera em movimento, que se aproxima dos olhos dos atores. Esse recurso trouxe sensações de vertigens para o público, que, em sua grande maioria, não reagiu bem à inovação técnica.

 

Esse artifício foi uma novidade sem igual, visto que tornou o filme mais experimental em uma Hollywood acostumada com os padrões básicos de narrativa. Contudo, por incrível que pareça, o filme, quando lançado em 1958, não foi considerado por todos como a melhor obra de Hitchcock. O longa só recebeu o seu status de cult com o passar dos anos, diferentemente de sucessos imediatos do diretor, como Janela Indiscreta e Psicose. Vertigo, mesmo inovando na sequências de zooms e afastamento da câmera, que traz a mesma tontura sentida pelo protagonista (e que custou US$ 19 mil por poucos segundos), só foi considerado um clássico depois da morte do diretor, que aconteceu em 1980.


Além disso, o filme também foi marcado por sua originalidade nos figurinos. Na década de 1950, poucos filmes usavam a cor para ajudar a contar a história, visto que muitos diretores ainda não estavam acostumados com a possibilidade. Hichcock, sendo contra a maré, planejou uma série de vestidos, com o apoio da especialista Edith Head, que ajudaram o roteiro a transmitir a ideia de perigo ao público. O público sentiu desconforto e não conseguia explicar o porquê. Tudo por causa das roupas!


O diretor e Edith garantiram um visual não-convencional à misteriosa Madeline Elster, personagem que usa cinza para trazer a ideia de uma mulher morta por dentro, pronta para atacar quando fosse preciso. E isso casou perfeitamente bem a todo o conceito do diretor, que, ao tratar sobre vício, mostrou um romance possessivo e violento, levando em conta que o homem tenta dominar a mulher, sem perceber que ele era o dominado.


A trama começa quando Scottie, vivido por James Stewart, começa a investigar a mulher de seu amigo. Daí em diante, Scottie se apaixona pela mulher, vivida por Kim Novak. Entretanto, depois de uma tragédia com Medeline, Scottie se apaixona por Jody e a transforma em Medeline, do modo mais machista possível. Jody, mulher que não possui família ou amantes, se relaciona e aceita. Depois de muito tempo, ela se transforma nessa outra pessoa que nunca conheceu.


Vertigo é um daqueles filmes que, independente da mídia (cinema, TV, DVD, Netflix), faz o espectador se apaixonar por cinema. É um filme que fala de uma época para aquela época e que, segundo os livros de história, não mudou muito. Vale para nós, do século 21 também. É, sem dúvida alguma, uma bela obra-prima.

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Curiosidades sobre o filme

 

O filme veio se tornar reconhecido mundialmente com o passar dos anos. A revista alemã Sight and Sound, por exemplo, que realiza votações a cada dez anos entre alguns cineastas do mundo todo, elegeu Vertigo o melhor filme de todos tempos em 2012, tirando Cidadão Kane do seu primeiro lugar, que durou 50 anos.


O título original Vertigo em Portugal se tornou A mulher que viveu duas vezes. Que belo spoiler para o país.


A sequência de abertura, feita pelo designer Saul Bass, foi a primeira a usar computação gráfica no cinema. Imaginem o choque do público.


Judy seria interpretada por Vera Miles, que estava grávida no período de filmagens. Dois anos após, ela teve um papel em Psicose.


Kim Novak só fala depois de 46 minutos de filme. Anos mais tarde, o diretor confessou que não tinha gostado de sua atuação.


Vertigo é um livro escrito pela dupla Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Eles escreveram pensando justamente na adaptação de Hitchcock.

GABRIEL AMORA

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