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Cinema: Tropykaos estreia hoje em Fortaleza

| ESTREIA | Premiado no Festival de Tiradentes, Tropykaos aposta no delírio do protagonista para refletir sobre inadequação na metrópole

01:30 | 24/05/2018
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Nos primeiros segundos de Tropykaos, filme de Daniel Lisboa que chega hoje aos cinemas, o ruído de uma respiração ofegante acompanha os créditos de abertura. A dificuldade no fôlego é uma constante neste longa ganhador do prêmio Transições na 19a Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2016. Ampliado para o espaço da cidade, igualmente protagonista, o hálito curto se torna metáfora para um tempo de inadequações e incoerências.


É o ator Gabriel Pardal, mais conhecido por seu trabalho de ilustração como Canibal Vegetariano, que dá vida a Guima, personagem principal de uma trama que se desenrola em uma Salvador farta, às vésperas do Carnaval. Guima aparece cambaleante para o público, se arrastando por escadarias do centro da cidade, esbarrando em figuras que passam indiferentes ao seu estado de colapso físico. Para evitar a queda, mete a cabeça dentro de uma caixa de isopor cheia de gelo.


“É… Você tá realmente quente”, avalia a médica enquanto aguarda a liberação dos exames pelo laboratório, antes de colocar Guima no soro, em uma sala com ar-condicionado marcando 17 graus. Na sequência, corpos morenos são capturados em detalhes, barrigas, coxas, peitos, bundas. Pele suada na praia, poros eriçados em febre. No verão de Salvador, todos, exceto Guima, parecem confortáveis. A espera é pelo Carnaval, vértice de uma paisagem construída a favor da carne e sexo.

 

O declínio de Guima, justificado no filme pelo que decidiram batizar de “ultraviolência solar”, é apresentado como alegoria para a dissonância personagem-ambiente. Jovem poeta, Guima não se encontra nas temperaturas daquele espaço, na provocação de corpos evolutivamente adaptados para o calor e para uma sensualidade que faz suar até as estátuas das praças. Guiada por seus delírios, a narrativa avança borrando gradativamente os limites entre realidade e desvario, ficando para a audiência a tarefa de isolar os extremos e depurar a verdade. Afinal, que sol é esse que só atormenta o poeta?


O roteiro sagaz de Daniel Lisboa e Guilherme Sarmiento permite uma apropriação interessante da vida em Salvador. A cidade pulsa como um organismo vivo e sensual. Nessa construção naturalista do ambiente, o drama de Guima acaba soando, vez por outra, mais juvenil do que realmente é, como se sua dor estivesse revestida por uma imaturidade que não permite um mergulho profundo em temas transversais, como o vício em drogas, a religião e o conservadorismo dos núcleos familiares.


O maior mérito de Tropykaos é a ousadia ao diluir a interseção entre realidade e sonho, permitindo que seus personagens transitem entre esses lugares como se a própria cidade fosse construída na afluência desses dois pólos. O filme de Daniel Lisboa também acerta na consolidação da metrópole como corpo vivo, cheio de marcas, cicatrizes, fluidos e secreções. Seu desarranjo é a elaboração do drama físico e psicológico do protagonista, que custa a soar autêntico. Falta um pouco da incorporação demonstrada por Cláudio Assis em seu projeto naturalista de cinema, ancorado na proposta de que o ser humano é estômago e sexo. Afinal, é isso que a cidade também é.


Tropykaos


Data: Estreia hoje, 24, na sessão de 18 horas

Local: Cinema do Dragão

Informações sobre outras sessões: dragaodomar.org.br/programacao-cinema

JÁDER SANTANA

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