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Cinema autoral brasileiro mostra diversidade da produção nacional

|ANÁLISE| Engolido com os milhões de Hollywood e do "filme do pastor", cinema autoral brasileiro vem tendo um ano que mostra toda a diversidade da produção nacional

01:30 | 03/05/2018
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Corre-se um sério risco de 2018 ser o ano mais lucrativo da história do cinema nacional. Pelo menos oficialmente. E existe um lado meu que gostaria de, quando chegar o fim do ano, olhar os números e comemorar. De janeiro ao final de abril, 43 longas-metragens nacionais chegaram aos cinemas de todo o Brasil – e grande parte deles teve um espaço, ainda que limitado, ainda que corrido, nas salas de Fortaleza. Só que as cifras milionárias se concentram quase que exclusivamente em Nada a Perder, de Alexandre Avancini, cinebiografia do bispo Edir Macedo que já vendeu milhões de ingressos apesar dos recorrentes relatos de salas vazias.


Supostamente, o filme do bispo já levou 10 milhões de pessoas ao cinema. E é um raro caso de longa nacional no circuito comercial, nas salas de shopping. Na época da estreia, conferi como estava a venda dos disputados ingressos e descobri que faltavam apenas 20 ingressos para lotar cada uma das sessões programadas para a semana. Ou seja, coincidentemente eram 20 entradas não vendidas em cada uma das sessões do filme no mesmo cinema entre quinta e quarta-feira. Em breve, Nada a Perder deve ultrapassar outro fenômeno fantasma do cinema nacional: Os Dez Mandamentos, “visto” por 11,3 milhões de pessoas, apesar de ter sido exibido como novela semanas antes.

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As salas de cinema de shopping exibem sessões atrás de sessões, muitas vazias ou quase isso, de um filme de valor artístico questionável. E ganham muito dinheiro com isso. Paralelamente, da lista de 43 filmes nacionais lançados no Brasil em quatro meses, apenas outros seis chegaram às salas comerciais: a comédia Os Farofeiros, o drama Aos Teus Olhos, a ficção científica A Repartição do Tempo, o suspense Motorrad e as comédias Gaby Estrella e Peixonauta – O Filme. O primeiro é mais um dos recicláveis sucessos Globo Filmes, que ficam semanas em cartaz. Os outros deram uma, no máximo duas semanas de oportunidade para o público cearense ir ao cinema.


Ao cinema nacional em Fortaleza, o que resta é o Cinema do Dragão. São duas salas, com em média três exibições diárias cada, funcionando seis dias por semana. Em média, 18 exibições de filme por semana, completamente dedicados ao cinema autoral de todo o Brasil, América Latina, Europa, Ásia, América do Norte, Oriente Médio, Oceania, África. É pouco, muito pouco, para uma cidade de 2,5 milhões de habitantes.

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Entre os tais 43 filmes nacionais, tivemos documentários como Torquato Neto – Todas as Horas do Fim e Ex-Pajé; dramas como Pela Janela, Aos Teus Olhos, Arábia; comédias românticas como Todas as Razões Para Esquecer, Todo Clichê do Amor; suspenses como Motorrad; fantasias como Encantados; comédias como Os Farofeiros; animações como Peixonauta – O Filme; comédias dramáticas como Quase Memória. E muito, muito mais. E, para cada um, tivemos uma semana, talvez duas para correr ao cinema e ver. Quando isso.


O cinema brasileiro cresceu e cresce em um ritmo muito maior do que a economia nacional. Gera empregos, gera lucros e é um setor mais organizado do que a grande maioria. Falta essa perna final, conseguir chegar ao público, conseguir chegar aos cinemas. Falta uma cota de exibição de filmes nacionais, algo que evite que Vingadores: Guerra Infinita domine 90% do circuito exibidor. Faltam mecanismos para descentralizar a distribuição, para que o domínio de Hollywood não vire domínio da Globo Filmes. E falta, em especial, uma chance. O Brasil tem um dos cinemas mais diversos do mundo. Pena que o brasileiro ainda não sabe disso.

 

ANDRE BLOC

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