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Cenas de Roth

01:30 | 24/05/2018

Uma parte significativa da crítica e dos estudos da ficção norte-americana do século XX gosta de usar a noção do “grande romance americano” para analisar a produção literária de diferentes gerações de escritores dos EUA.


Como se fosse uma dívida de origem, cada autor que surgia teria que se virar para saldá-la, pelo menos na ansiedade dos críticos, que esperavam ver como pagamento um panorama da vida na América, com aquelas sagas cheias de delírios individualistas. Philip Roth escreveu, publicou e ganhou prêmios no (por)
meio disso.


Independentemente do seu tipo de trágico, essa ideia de uma grandiosa narrativa disfarçava mal as pretensões da economia da literatura americana, principalmente aquela feita (criada, editada, resenhada) por homens brancos de classe média.


Roth é sintoma disso. Suas imagens de “complexo”, “comum”, “complô”, “angústia” e “contingência” estão mais para a parcialidade patriarcal e heteronormativa secular do que para um suposto “universal humano”. Se houve ironia, foi essa.


HUMBERTO PINHEIRO

Historiador

GABRIELLE ZARANZA

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