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Cearense faz campanha para participar de residência artística no Chile

| FINANCIAMENTO | Intérprete-criador cearense Wellington Gadelha inicia campanha para custear residência artística no Chile

01:30 | 29/05/2018
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A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Isso significa que, dentre 100 pessoas vítimas de homicídio no País, 71 são negras. A informação apresentada no Atlas da Violência, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no ano passado, expõe índices alarmantes de extermínio da juventude negra e periférica. Do início do ano para cá, mais de 30 trajetórias foram brutalmente interrompidas em chacinas em Fortaleza. Mas, na contramão dessas narrativas, o corpo do artista Wellington Gadelha está vivo, muito vivo. E dança.


Autodenominado intérprete-criador, Wellington é um dos brasileiros classificados para a residência artística chilena de dança contemporânea Movimiento Sur. Seu experimento cênico Gente de Lá é fruto do projeto Afrontamento, desenvolvido no Laboratório de Dança do Porto Iracema das Artes, sob tutoria do bailarino mineiro Luiz de Abreu e colaboração do artista baiano Leonardo França em 2017. No palco, Wellington dança sua história: negro, morador do bairro Autran Nunes há 31 anos, o performer apresenta ao público sua investigação sobre os conflitos territoriais marcadamente segregatórios e as resistências que experimenta na Capital. Seu corpo ainda é alvo, mas encontrou nas artes um gatilho.

[SAIBAMAIS]

“Como pensar a dança contemporânea a partir de um corpo negro, urbano e periférico? Meu corpo é a minha arma, eu penso a dança a partir do corpo roleta russa”, comenta o artista, referindo-se ao jogo de azar praticado com um revólver. “Eu fui percebendo que meu corpo está em jogo o tempo todo porque transito entre territórios, mas não sei se vou voltar, tá ligado? O meu corpo é esse e eu não sei o que vem”.


É esse corpo roleta russa que entra em cena em Gente de Lá. A proposição cênico-instalativa toma emprestado o título de uma canção da banda F.UR.T.O para refletir sobre os distanciamentos impostos à “Essa gente de lá/ Já faz mais de um ano que não posso ver”.


Apesar de estar sozinho no palco, Wellington não dança desacompanhado: o artista carrega consigo um balde cheio de areia branca, representando os coletivos com os quais dialoga do Serviluz ao Pirambu, e outro balde com areia vermelha, antigamente muito encontrada no Autran Nunes. Composta em parceria com os artistas Priscilla Sousa e Alexandre Fernandes, a performance de quase 50 minutos é repleta de movimentos fortes e compassados ao som do chamado funk macumbinha ou aquecimento, uma enérgica ligação do ritmo ao candomblé, e passeia também pela ancestralidade dos sons iorubás.


Sem esconder seus dissensos com os espaços artísticos institucionais, Wellington afirma se interessar pelos acertos e não acertos da roleta russa nessa linguagem. “Dentro da dança contemporânea rola um pensamento europeu colonial do que é tido como dança. Eu penso em dança a partir do meu corpo enquanto funk, enquanto favela. Dança é deslocamento, encontro. Se eu saio do ônibus, não tem deslocamento entre uma quebrada e outra? Quando eu vejo uma fulana, não é um encontro?”, pondera, alertando que sua vontade não é romper com esses espaços, mas sim dialogar. “Hoje me interessa mais pensar dança a partir dos ‘corres’ que a gente faz do que essa parada cênica. A minha dança é cotidiana, está no micro. Dança é só uma desculpa para estar junto. Dança, pra mim, é produzir estado de alegria. A arte ressignificou a minha vida”.


No dia 8 de junho, às 20 horas, o artista apresentará Gente de Lá no Teatro Universitário, com entrada colaborativa: o público paga o quanto quiser.


Exercício cênico Gente de Lá

Onde: Teatro Universitário Paschoal de Carlos Magno (Av. da Universidade, 2210, Benfica)

Quando: 8 de junho às 20 horas

Ingressos colaborativos

Campanha de financiamento coletivo até 16 de junho na plataforma Catarse.me (www.catarse.me)

 

BRUNA FORTE

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