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O Disco pela capa

| DESIGN | O Vida&Arte convidou artistas gráficos de duas gerações distintas para refletirem sobre os processos e o lugar das capas de disco em tempos de streaming

01:30 | 09/04/2018
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A ideia do ditado popular que diz que “não se julga um livro pela capa” pode valer para discos também. No entanto, seja em qualquer tipo de produto, é difícil ignorar o apelo de um bom design, ilustração ou fotografia que indique ao consumidor o que pode vir naquela obra e, assim, o instigue a consumi-la. 

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Discos históricos alcançaram status a partir de capas potentes, como por exemplo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, com arte de Jann Haworth e Peter Blake; Secos & Molhados (1973), do grupo homônimo, com foto de Antonio Carlos Rodrigues; e Nervermind (1991), do Nirvana, com foto de John Chapple.
 

Em tempos de redes sociais e música por streaming, em que o objeto (seja ele em formato de CD ou LP) deixou de estar à mão, o papel das capas passou por mudanças. O que não se alterou, segundo os artistas entrevistados pelo Vida&Arte, foram o comprometimento e a importância da intimidade para o processo de produção. O artista gráfico e jornalista Elifas Andreato, de 72 anos, e a fotógrafa cearense Taís Monteiro, de 26, são de gerações diferentes, mas é possível encontrar aproximações entre eles a partir do modo que encaram essa produção - ainda que ele trabalhe em especial com ilustração e ela, com fotografia.
 

Elifas tem mais de 600 obras produzidas e segue na ativa desde os 25 anos, quando entrou na área do desenho e da diagramação ao ilustrar a coleção A História da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural. “O resultado do meu trabalho gráfico me aproximou de compositores que estavam surgindo, consolidando carreira, e então fui chamado para fazer capas”, remonta, em entrevista por telefone ao O POVO. As primeiras vieram no início dos anos 1970, com destaque para a parceria com Paulinho da Viola -são de Elifas capas icônicas da carreira do sambista, como A Dança da Solidão e Nervos de Aço.
 

Taís, além da fotografia, também tem vivências na área do cinema e é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. Com contato próximo de artistas da música cearense, ela fotografa não somente para capas, mas também outros materiais promocionais e de divulgação de bandas como maquinas e Terceiro Olho de Marte. Recentemente, a fotógrafa trabalhou nas capas dos novos álbuns do projeto Vacilant (Só me faça esquecer das coisas, lançado no começo de março), Caio Castelo (Pontes de Vidro, que será lançado no próximo dia 20) e Clau Aniz (Filha de Mil Mulheres, a ser lançado ainda este mês).
 

Para ambos, um bom processo de capa passa pela intimidade com a obra, o artista e a tentativa de representação destes numa imagem. “Eu nunca fui convidado (para fazer capas) por gravadoras, era sempre por artistas. Eles nunca me impuseram coisa nenhuma, e, se tentavam, eu rechaçava. É difícil para quem está gravando um disco definir o que quer para a capa. Muitas vezes, têm ideias equivocadas”, afirma Elifas. Ele define seu papel como o de “uma pessoa de fora que tinha o cuidado de ouvir (a obra), estar com o artista, acompanhá-lo no futebol, na sinuca, no botequim”. “Esse processo da vida produzir a obra sempre foi fundamental, era o que me dava subsídios para criar. Em resumo, eu precisava entender em que momento da vida ele estava”, ensina.
 

Em diálogo, Taís define o processo “de criar imagem a partir da música” como “de tradução e imersão”. “Minha preocupação é a de entender o ambiente, as sensações, os desejos escondidos e, também, explícitos ao ouvir as músicas. 

 

Costumo estar perto, presente durante o processo de criação, produção e gravação. Talvez seja dessa proximidade que surja a intimidade de fazer uma fotografia que dialogue com a música. Trata-se de observar a narrativa e criar imagens a partir de pedaços e pistas”, avança a fotógrafa. “É um processo de troca, diálogo, confiança. Dura meses, às vezes anos, para ser fermentado”, avisa. “Costumo desenhar, tirar fotos preliminares, conversar sobre cores, coisas e situações para chegar a um palpite do que essa imagem (da capa) pode ser”.
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Resumindo o trabalho como produtor de capas icônicas da história da música brasileira, Elifas demonstra humildade. “Sempre tive consciência de que eu seria um artista gráfico a quem caberia o papel de convidar as pessoas a se interessarem por obras grandiosas, maiores do que as que eu posso fazer. 

 

Tudo sempre foi feito com o objetivo de provocar interesse pelas grandes obras que eu embalava. É a minha profissão, o que faço até hoje”, considera. 

 

Para Taís, a capa tem ainda a força de propor caminhos a quem a vê. “Mesmo que ela tente condensar a sensação que predomina na música, a capa abre um caminho novo. É lugar de experimentações, fantasia, criação, fabulação do que ainda se vai ouvir. Eu escolho e tenho a sorte de trabalhar visualmente a música de artistas cearenses que não têm medo de experimentar e buscar outra realidade a partir das imagens”, celebra.   

 

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TAÍS MONTEIRO trabalha, em especial, com fotografias em capas de disco. Ela fez as capas dos dois trabalhos do projeto Vacilant (incluindo a do mais recente, Só me faça esquecer das coisas - foto maior). No detalhe, uma fotografia analógica feita no processo de produção da capa do novo disco de Caio Castelo, Pontes de Vidro, apostando em interação com arte de Raisa Christina.   

 

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PARA ELIFAS ANDREATO, a relação com o samba é “antiga”. “Ela vem lá de 1972, com Martinho da Vila, Paulinho da Viola, depois Chico Buarque, Clara Nunes, Clementina de Jesus...”, lista. Ao lado, uma das capas mais icônicas feitas por Elifas, para o disco Nervos de Aço (1973), de Paulinho da Viola (”ela mudou o conceito de capa de disco no Brasil”, considera o designer). No detalhe, Espiral de Ilusão (2017), de Criolo, um dos trabalhos mais recentes de Elifas para discos. “Foi uma honra ter sido convidado pra fazer uma capa para o Criolo, ainda mais de um disco de samba”, celebra.   

 

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JOÃO GABRIEL TRÉZ

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