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Nelson, o pilar

01:30 | 23/04/2018

Nelson Pereira dos Santos é pedra fundamental para o que entendemos hoje por cinema brasileiro. Precursor do Cinema Novo, estreou o olhar além do folclórico para a periferia em Rio 40 Graus (1955), marco inaugural deste que é um dos mais importantes movimentos cinematográficos mundiais do século XX. E um filme definidor do quão político seria (e é) o seu cinema.


Por óbvio, a obra de Nelson é eloquente o suficiente para dimensionar sua relevância. Porém, entre os mais de 20 longas que realizou, destaco dois clássicos, verdadeiras joias da coroa, em sua filmografia. Coincidentemente, duas adaptações de obras do alagoano Graciliano Ramos.


O primeiro é Vidas Secas (1963), um dos capítulos obrigatórios para quem tem a mínima pretensão de conhecer (e entender) a cinematografia brasileira. Além de todas as qualidades fílmicas que tem, é o longa em que o cearense Luis Carlos Barreto revoluciona a fotografia ao registrar, pela primeira vez, a intensidade da luz do sertão nordestino sem nenhum filtro.


O segundo é Memórias do Cárcere (1984), um libelo antiditadura, lançado nos estertores do regime. A última obra-prima do mestre Nelson é protagonizada por um Carlos Vereza ainda em pleno gozo de suas faculdades mentais, num desempenho arrebatador, que dificilmente seria repetido hoje, uma vez que o ator está mais preocupado em analisar a aura de com quem interage do que com a veracidade política da arte.


Mas, voltemos ao que interessa. Nelson Pereira dos Santos é um dos principais pilares do cinema brasileiro. Sua partida não deixa vácuo porque sua obra permanece e é sólida o suficiente para seguir influenciando muitas outras gerações vindouras. Vá em paz, mestre!

 

Émerson Maranhão

JORNALISTA DO O POVO

GABRIELLE ZARANZA

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