VERSÃO IMPRESSA

Na estrada com Belchior

01:30 | 30/04/2018

 

“Eu vou pra São Paulo e Rio (Eldorados de além-mar), a estrada é uma estrela pra quem vai andar”. Talvez tenham sido exatamente esses versos da canção Monólogo das grandezas do Brasil, de Belchior, que me fizeram querer seguir essa viagem. A mesma que o sobralense fez no final da década de 1960. E, assim, depois de 26 anos morando no Ceará, “sem ter medo da saudade”, como cristalizou Mucuripe, parti de Fortaleza para São Paulo para um doutorado na USP, justamente para estudar a obra do compositor das canções que me inspiraram por tanto tempo no ímpeto de migrar.
[SAIBAMAIS] 

O início desse percurso, em 2007, coincidiu com o momento em que Belchior decidia iniciar o seu exílio final. Por isso, o começo de meu roteiro de saída de Fortaleza inaugurou também na minha vida de pesquisadora uma busca pelo 

autor da frase “Vida, vento, vela leva-me daqui”.
 

Em Sampa, eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei. Encontrei Belchior pelas ruas, por entre os carros do São Paulo violento, na Consolação, nos parques em plena quarta-feira e no domingo, na eletricidade e no cimento dos prédios, mas também no pensamento, no coração e sentimento dos cidadãos comuns, nordestinos do Brasil inteiro que não param na Paulista.
 

Lá em São Paulo, enquanto me debruçava na tese, nas profundezas do cancioneiro de Belchior, decidi procurá-lo no Rio, que corre e engana. E Belchior estava lá: na Zona Norte, nos cabarés da Lapa. E no Corcovado, de braços abertos, ouvi o autor de Paralelas cantar: “Copacabana, esta semana o mar sou eu”.
 

Depois de São Paulo, fui morar na capital francesa, para continuar as pesquisas sobre a obra de Belchior na Sorbonne. E confesso que, além de tudo o que a Cidade Luz representa, os versos de Tudo outra vez tiveram lugar especial dentro da mala.
 

Já depois de sua morte, fui procurar Belchior em Santa Cruz do Sul. Ele, apreciador de charutos, escolheu passar os seus últimos anos na cidade considerada a “capital mundial do fumo”. Ele, que tinha o coração selvagem e pressa de viver, foi morar na cidade que possui um dos autódromos internacionais do Brasil.
 

Por ser sobretudo um rapaz Latino-Americano, feito de sonho e de sangue e de América do Sul, “pensei até em passar a fronteira” e achei que tinha de procurar Belchior no Uruguai.
 

Foi adentrando a terra dos charrúas que encontrei o conteúdo das canções de Belchior nas “veias abertas da América Latina”, das quais fala Galeano. Como o autor uruguaio, Belchior desejou, no campo musical, “tentar o canto exato e novo (que a vida que nos deram nos ensina) pra ser cantado pelo povo na América Latina”.
 

De Montevidéu, há alguns dias, atravessei o Rio da Prata para Buenos Aires. Lá os versos de A Palo Seco acompanharam a comemoração de meu aniversário: “Tenho 37 anos, por força deste destino, o tango argentino me vai bem melhor que o blues”, adaptei. Na capital argentina, encontrei Belchior nas muitas livrarias da cidade, no carisma de Gardel e na intelectualidade de Borges. Se como uma metrópole, o nosso coração não pode parar (como resume verso de Monólogo das grandezas do Brasil), viajar ao encontro de Belchior, ou melhor, viajar à procura do que diz o artista em suas canções, é uma viagem em que encontramos a nós mesmos: jovens de todas as idades e lugares, desnorteados, desapontados e apaixonados. Que somos como ele!   

 

Josy Teixeira Carlos
josyteixeira@hotmail.com
Professora de linguística, pesquisadora da USP, com teses de mestrado e doutorado sobre Belchior  

 

GABRIELLE ZARANZA

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