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Morre aos 89 anos o cineasta Nelson Pereira dos Santos

| NELSON PEREIRA DOS SANTOS | Peça-chave na história do audiovisual, cineasta morreu aos 89 anos. diretor foi pioneiro no ensino do cinema e membro da ABL

01:30 | 23/04/2018
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A história do audiovisual brasileiro não seria a mesma sem Nelson Pereira dos Santos, diretor de Rio, 40 Graus (1955) e Vidas Secas (1963). O cineasta —que morreu, aos 89 anos, no último sábado, 21 —é considerado precursor do Cinema Novo, movimento cinematográfico que jogou luz em assuntos sociais do País. Ao longo de seis décadas, o paulistano realizou quase 30 filmes e foi também membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nelson estava internado no Rio de Janeiro e não resistiu a complicações provocadas por um tumor localizado no fígado.


“Nelson era um conversador, muito agradável. Não existia ali a presunção de uma pessoa muito importante. Era muito generoso, tanto que inaugura a atividade de professor de cinema no Brasil”, afirma o também cineasta Walter Lima Júnior. Foram quase cinco décadas de amizade entre os dois expoentes do Cinema Novo. “Ele acredita num cinema de iniciativa independente, não aspirava o industrial. Foi Nelson que levou o cinema brasileiro ao moderno. Tinha um comprometimento com toda uma indagação humanística ligada a questões mais profundas, políticas”, avalia.

[SAIBAMAIS]

Para o amigo, apesar de ser “pedra fundamental” do Cinema Novo, o trabalho de Nelson existe e resiste “inpendente desse movimento”. “Não há nenhuma cena do cinema subsequente do que a morte de Baleia em Vidas Secas. Foi o próprio Nelson que filmou escondido debaixo de uma carroça”, narra Walter.


Bete Jaguaribe, diretora do Porto de Iracema das Artes e coordenadora do curso de Cinema da Unifor, lamenta a perda. Para a especialista, Nelson foi o mais importante cineasta brasileiro por ser a grande referência do Cinema Novo, embora fosse um pouco mais velho do que as grandes lideranças. “Vidas Secas (1964) é o mais importante filme do cinema moderno brasileiro, que inspirou toda geração do Cinema Novo e Pós-Cinema Novo”, diz.


A maior aproximação com o agora imortalizado cineasta aconteceu na década de 1990, época em que coordenava o Instituto Dragão do Mar, uma escola de artes do Governo do Estado do Ceará. “Ele contribuiu muito com o projeto, dava aulas e participava de bancas de seleção. Nelson era um brasileiro inspirador porque é da geração que lutou pela democratização no País. Sem dúvida foi a liderança mais importante do Cinema Novo, comprometido com a realidade da população brasileira”, declara. Para Bete, ninguém que queira ser cineasta pode passar sem conhecer sua cinematografia ou mesmo qualquer brasileiro envolvido com arte. “É inquestionável para a cultura brasileira, pois ajudou a construí-la. Estamos falando de uma perda que deixou uma obra referência”.


Samuel Brasileiro, cineasta cearense, ressalta a importância de Nelson até mesmo para a legalização da profissão que abraçou para a vida. Afinal, foi Nelson quem criou um dos primeiros cursos de cinema do Brasil, na Universidade Federal Fluminense (UFF) no ano de 1968. “Me formei pela Universidade Federal do Ceará (UFC) graças a esta grande empreitada do cineasta, que deixa saudade. Ele foi importante também por usar o cinema como força política para pensar sua própria época, sendo responsável pela retratação da realidade árida do Nordeste em Vidas Secas (1964), mais uma de suas mobilizações políticas”, pontua Samuel.

Renato Abê e Ana Karenyna



GABRIELLE ZARANZA

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