VERSÃO IMPRESSA

Mambembe celebra cinco anos e estimula discussão sobre entorno

CIDADE | Completando cinco anos, Mambembe, bar situado na Rua dos Tabajaras, festeja ocupação do entorno e traz à tona questões de ordenamento urbano da Praia de Iracema

01:30 | 14/04/2018
[FOTO1]

O bairro da Praia de Iracema, reduto de boemia e cultura da Capital, vem passando nas últimas décadas por problemas que ora a esvaziam, ora inspiram a ocupá-la. São muitas as iniciativas — privadas, públicas ou de coletivos — que tentaram e ainda tentam mexer com o bairro, seus equipamentos e seu entorno. A partir do aniversário de meia década do bar Mambembe, que fica na Rua dos Tabajaras, uma importante via do bairro, o Vida&Arte discute a ocupação e requalificação da região.


Atual sócia e produtora do estabelecimento, Luana Caiube está ligada ao bar há quatro anos e meio e, mesmo sem ter estado na época da fundação, lembra os momentos iniciais da casa. “Quando o Mambembe abriu, a Rua dos Tabajaras era deserta, abandonada. Havia um processo de sucateamento do bairro e do entorno”, recorda. “Foi muito ousado trazer o Mambembe para cá, na época. A rua tinha uma ausência de movimentação, era mais perigosa, não tinha muitos estabelecimentos funcionando ao redor”, lista. Sobre as casas de caráter turístico que estão há anos na rua — o Pirata Bar e a casa de show Lupus Bier —, Luana lembra que “as pessoas saíam dos ônibus de excursão para entrar nos locais, não vivenciavam a rua”, aponta. A partir de 2014, novos estabelecimentos abriram nas imediações e, hoje, Luana considera que a Rua dos Tabajaras “virou meio que um corredor cultural”.

[SAIBAMAIS]

Na avaliação da produtora, o Mambembe foi um estímulo para esse fluxo. “Essa movimentação foi natural. A nossa cultura de festas e circulação acabou criando uma vida para a rua. Isso, por sua vez, criou um comércio local. Hoje, são várias famílias de ambulantes envolvidas, se criou uma economia, ainda que informal. Muitas delas acompanham o Mambembe nesse movimento desde aquela época”, divide. “Quando surgiu algum plano ou ação movida por empresários ou pela Prefeitura nos últimos anos para tirar os vendedores, eu sempre me posicionei contra. Eles são pessoas que acabam estimulando essa circulação. Existem questões legais, mas a saída talvez não seja banir as pessoas, mas encontrar um meio delas seguirem trabalhando”, propõe.

[QUOTE1]

Da parte do poder público, é possível lembrar do plano de requalificação lançado pela então prefeita Luizianne Lins (PT) em seu primeiro mandato, em 2008. Quase uma década depois, surge mais um, intitulado Plano Estratégico Colaborativo, lançado em dezembro de 2017 no segundo mandato de Roberto Cláudio (PDT). Ele traz uma série de propostas para nova requalificação do bairro. Ao longo desses anos, é possível apontar diferentes graus de ocupação da Rua dos Tabajaras. Um ponto de virada importante veio, em parte, com a abertura dos estabelecimentos que começaram a surgir na via com foco em programações noturnas para os fortalezenses, como o Mambembe, que se firmou como um importante polo de movimentação.


Em entrevista por telefone na última quarta-feira, mesmo dia que assumiu oficialmente a Secretaria do Turismo de Fortaleza (Setfor), o responsável pela pasta Régis Medeiros frisou a intenção do poder público de “reabitar” o bairro com o novo plano de requalificação. “Foi criado o Instituto Iracema (organização social) que envolve o poder público e a comunidade da Praia de Iracema para que as intervenções (na região) ocorram em conjunto”, afirmou. Entre algumas delas, estão uma parceria com o Sindicato das Construtoras (Sinduscon) para a pintura das fachadas da rua dos Tabajaras, reforma do calçadão da via (que, segundo ele, está em processo), a instalação de um “contêiner-base” da Polícia Militar próximo ao Centro Cultural Belchior, a futura instalação da Delegacia do Turismo e a inauguração da roda-gigante na orla (prevista para o Réveillon 2019/2020).


Além de questões de segurança e estrutura, a Rua dos Tabajaras também traz consigo importância em relação ao lado boêmio e cultural do bairro, já que é nela que fica o Estoril, prédio histórico que acolheu diversas dessas manifestações ao longo dos anos. Desde 2017, o Estoril tem papel burocrático, funcionando como sede da Setfor - antes dessa ocupação, o prédio estava fechado. Sobre ações culturais e artísticas no bairro, o titular da pasta citou a Quarta Iracema, o projeto ambiental Amar o Mar e a feira itinerante Sábado Feira. Para o secretário, “a ocupação (do prédio) pela Secretaria foi emblemática, até para ela ser uma âncora catalisadora” do potencial cultural do equipamento. Questionado sobre quais seriam as ações culturais acolhidas pelo prédio, o titular citou apenas a galeria Mário Baratta.


Fazendo um balanço comparativo, Luana considera que ter um espaço na Praia de Iracema hoje é mais tranquilo. “Há esse fluxo criado para cá, as pessoas têm menos medo, mas ainda assim não é algo geral. Talvez as ações públicas devam existir para que a sensação se dissolva. Ela vem se dissolvendo”, celebra.


 

 

JOÃO GABRIEL TRÉZ

TAGS