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Final do BBB18 está dividida entre três narrativas familiares

BBB 18 | Com Gleici e Kaysar disputando o favoritismo ao prêmio, final do reality show ficará marcada por ser decidida entre três narrativas familiares, que dialogam entre si dramaturgicamente

01:30 | 19/04/2018
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A 18ª edição do Big Brother Brasil termina hoje e, aparentemente, o público escolherá o vencedor entre o sírio Kaysar, a acreana Gleici, e a dupla carioca Ana Clara e Ayrton Lima, oficialmente os três finalistas do reality show. E eu digo aparentemente porque uma análise mais atenta revelará que os Lima não são a única família finalista desta edição do programa da TV Globo. Assim como pai e filha chegaram juntos à última etapa, Gleici e Kaysar se valeram de seus pais para comover o público e estar a um passo do prêmio de R$ 1,5 milhão.


O garçom Kaysar, 28 anos, passou o programa falando que o dinheiro do prêmio seria usado para resgatar a família da guerra na Síria. Causa de nobreza inequívoca. “Eu quero ajudar minha família, tirar eles da guerra, trazer eles para cá. Brasil, preciso da ajuda de vocês”, afirmou mais uma vez, na última terça-feira, ao justificar porque merece vencer o programa.


Na sequência, Kaysar isolou-se e caiu em prantos ao sacar uma corrente de ouro com a fotografia dos pais. “Sete, oito anos longe de você, meu pai. Preciso fazer alguma coisa por vocês. Pai, mãe, será que vou conseguir?”, soluçou, falando com a foto. Ainda sob lágrimas, levantou-se e foi até o mapa mundi pregado na parede, e, com a corrente de ouro, criou uma ponte entre a Síria e o Brasil.


A cena foi impecável, das mais emocionantes desta edição. E dimensiona exatamente do que se trata a disputa. O favoritismo de Kaysar se deve bem menos à sua bela forma física e à sua ‘simpatia gringa’ que à carga emocional que sua trajetória e causa despertam.


A dúvida, aqui, é se ele tem o domínio do alcance efetivo do drama que propôs. Se o tem, é um excelente roteirista e estrategista dentro do jogo. Se não, é um caso único de sorte grande. Em qualquer das situações, não há demérito. E nem as vergonhosas tentativas xenofóbicas de alguns brothers de desqualificá-lo ao prêmio por “não ser brasileiro” parecem ter surtido efeito no engajamento público à sua narrativa.


A estudante de Psicologia Gleici Damasceno, 22 anos, também recorreu aos laços familiares em sua última oportunidade de pedir votos. “Estou aqui pela minha família”, repetiu a moça, que entrou no jogo como arrimo da mãe e dos irmãos.


Mais tarde, disse o que fará com o dinheiro do prêmio, caso vença. “Quero fazer casa para as minhas duas avós, meu avô e minha mãe. O resto, depois eu consigo mais dinheiro”. Mais uma motivação de grandiosidade inquestionável.


A trajetória de Gleici é digna de heroína de folhetim. A novidade, neste caso, é que a moça não necessita de um “príncipe encantado” que lhe redima. E esta talvez seja a principal razão de seu favoritismo ao prêmio que será anunciado logo mais.


Ainda menina, ela teve que cuidar da casa e dos irmãos, para que a mãe pudesse trabalhar como empregada doméstica. Aos 12 anos, começou a trabalhar como babá. Ia e voltava para a escola a pé, percorrendo 6 quilômetros por dia.


Antes de entrar no programa, trabalhava para o Governo do Acre e seu salário de R$ 2.700 era usado para manter a casa, humílima, onde mora com a mãe e os irmãos. De toda a sua família, que é composta, além do núcleo íntimo, por mais 15 tias e 50 primos, é a única a ter concluído ensino médio e entrar numa faculdade (paga pelo Fies).


Já a estudante de Jornalismo Ana Clara, 20 anos, entrou no programa para realizar o sonho do pai, o analista de sistemas Ayrton, 56 anos. Era ele quem tinha verdadeira obsessão em participar do reality show, tanto que já havia se inscrito 15 vezes na seleção. Todas sem sucesso.


Juntos, pai e filha formavam um só concorrente. E na conversa com os outros finalistas, na madrugada de ontem, Ayrton revelou seus planos para o prêmio: “Vou pagar minhas dívidas e fazer uma coisa que eu queria... com a Eva”. Ao que Ana Clara complementou: “Casar”. E esclareceu que o sonho do pai é oficializar a união com sua mãe. Mais uma vez, é o apelo familiar que move a intenção de ser premiado.


Três pontos chamam a atenção nesse BBB 18. O primeiro é o retorno de certa compreensão do público de que o prêmio serve como reparador de injustiças sociais. Ao longo desses 17 anos, alguns dos vencedores o foram devido à compensação pela pobreza em que viviam, como se fosse a derradeira chance de darem uma guinada em seus destinos. Nos últimos anos, essa prática caiu em desuso, mas volta com força total nessa edição.


Tanto é que Kaysar e Gleici, os favoritos ao prêmio em todas as enquetes, alternando-se na dianteira entre uma e outra, incluem-se nesse perfil. Ao longo do jogo, todas as outras personas foram sendo descartadas impiedosamente, e os altíssimos índices de rejeição demonstram isso. Caíram o nerd, a bruxa, as gostosonas, os exóticos... Seguiram firme até o final, os “com causa comovente”, digamos assim.


O segundo tópico é a presença da família como justificativa única pelo prêmio de todos os finalistas, o que reforça a tese que apresentei no primeiro parágrafo deste texto. O terceiro é a convergência (ao acaso) de três narrativas dramáticas protagonizadas por filhos abnegados, que se sacrificam em nome de uma missão nobre, que é realizar os sonhos dos pais. Pode observar, esse é o perfil de Ana Clara, Gleici e Kaysar, pelo menos enquanto personagens do reality show.


Dramaturgicamente, os três têm pontos de partida muito parecidos e leitmotivs também muito semelhantes. Apesar de todas as diferenças de personalidade e trajetória, essa característica os une e os legitima na disputa. Mérito de um roteirista de primeiríssima linha.


Ao escolher enfrentar o último paredão com a família Lima, a empresária mineira Paula creditou sua opção por se sentir injustiçada a ter que disputar por duas pessoas como se uma fossem. “Sou do jogo, não considero justo disputar com uma família quando, do outro lado, estou sozinha”. Mal sabe ela que estaria disputando com uma família qualquer que fosse sua escolha. E que, muito provavelmente por esta razão, são justamente as três famílias que chegam hoje à final do reality show.

 

ÉMERSON MARANHÃO

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