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Filme de Margarita Hernandez sobre Che Guevara no É tudo verdade

CINEMA | Filme cearense sobre Che Guevara, dirigido pela cubana Margarita Hernandez, estreia hoje no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade

01:30 | 14/04/2018
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Depois de anos atrás de complementos para o financiamento, o projeto Che, memórias de um ano secreto, da cubana radicada no Ceará Margarita Hernandez, será pela primeira vez apresentado para o grande público no Rio de Janeiro, compondo a programação do É Tudo Verdade. Além do Rio, o festival ocorre também em São Paulo (onde a obra estreia no dia 18) e tem foco na produção documental. O longa, cuja produção é da cearense Bucanero Filmes, é o único nacional que vai integrar além da Competição Brasileira, também da Competição Latina.


O filme volta ao ano de 1965, em plena guerra fria, quando o líder cubano Che Guevara desapareceu sem deixar pistas. A verdade é que, com identidade falsa, ele viajou disfarçado por diversos países enquanto aguardava orientações do serviço de inteligência de Cuba. Che, memórias de um ano secreto recupera os passos dessa operação a partir de figuras que ajudaram o revolucionário a escapar das instituições que o seguiam.


“A ideia (do filme) surge do livro A outra cara do combate, escrito pelo Dr. Luis Carlos García Gutierrez ‘Fisin’, cirurgião dentista que mascarou Che Guevara na ocasião da sua saída clandestina de Cuba. Eu tinha ganhado o livro do Wolney Oliveira, produtor do documentário, em 2011, e desde então a ideia foi sendo gestada. Começamos a pesquisa com a dificuldade da distância e da falta de recursos”, contextualiza Margarita, em entrevista ao O POVO. Na época, Fisin tinha 92 anos. “Lembro no primeiro dia de filmagem que ele falou: ‘você tem certeza que quer fazer um documentário sobre mim?’. Eu falei que sim, ao que ele respondeu: ‘num filme onde está Che, ele sempre será protagonista’”, relembra. “A pesquisa avançou, novos personagens foram revelados, encontramos novas informações, tudo relacionado ao Che. No final das contas, o doutor Fisin tinha razão”, reconhece a cineasta. “Che Guevera foi uma figura onipresente em toda a minha infância e juventude, sua imagem estava em todos os lugares. Eu nunca ia imaginar que fosse fazer um filme sobre ele”, celebra a cubana.

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O filme chegou a ser montado completamente em 2015, época em que tinha previsão de estreia para o ano posterior. No entanto, a produção enfrentou alguns contratempos. “A gente tinha feito uma montagem, estava contente, mas começaram atrasos de liberação de dinheiro e surgiram surpresas como o preço de imagens de arquivo”, explica. Foram usadas oito fontes de conteúdo, além de imagens cedidas do filme biográfico Che, do americano Steven Soderbergh, protagonizado por Benicio del Toro. Margarita revela ainda que o ator concedeu uma entrevista ao documentário, mas que não ela acabou não entrando no corte final.


Apesar das dificuldades de captação — “nenhuma empresa quis envolver seu nome com o do Che”, afirma a cineasta —, as filmagens aconteceram em diversos países por um valor considerado de baixo orçamento: o documentário agrega Cuba, Brasil, República Tcheca, Argentina e Bolívia e custou R$750 mil. A produção é totalmente cearense, pelo trabalho da Bucanero Filmes. “O Ceará já tem uma longa tradição de filmes com projeção nacional e internacional. Talentos não faltam e os mecanismos de financiamento estão se consolidando. Acho que o tendão de Aquiles está na distribuição desses filmes. Vamos ver se, com as novas salas de cinema do interior, cria-se um circuito alternativo para mostrar o cinema ‘made in’ Ceará”, opina. Che, memórias de um ano secreto deve ser exibido no Cine Ceará deste ano, em agosto. Além disso, ele já está com distribuição garantida pela Art House, do Rio de Janeiro.

 

JOÃO GABRIEL TRÉZ

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