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Artistas lutam pelo reconhecimento do forró como Patrimônio Imaterial

| PATRIMÔNIO | Resgatar as tradições do forró é uma peleja diária para artistas, pesquisadores e entusiastas. Desde 2011, as matrizes da tradição aguardam reconhecimento como Patrimônio Imaterial Brasileiro

01:30 | 16/04/2018

O forró - aquele mais tradicional - resiste. É como o samba: agoniza, mas não morre. Alguém sempre o socorre. Ano passado, uma mobilização tomou conta das redes sociais e de debates Nordeste afora. Sanfoneiros conduziram a campanha Devolva Meu São João, que alertava para uma descaracterização das festas juninas, em que o forró tradicional tem sido deixado de lado, para dar lugar às derivações mais comerciais do ritmo.

Esta mobilização é uma das iniciativas que surgem no País, em defesa do resgate e preservação do forró. Em 2011, mais precisamente, no dia 8 de julho, a Associação Cultural Balaio Nordeste (da Paraíba) deu entrada no pedido de reconhecimento das matrizes do forró como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

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O processo está sendo analisado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, enquanto o registro não acontece, pessoas ligadas ao forró raiz têm se mobilizado.

Uma destas articulações vai acontecer de 26 a 28 de abril, no Rio de Janeiro, onde há a segunda maior comunidade nordestina do País, fora da própria região (a primeira é em São Paulo). Será o Fórum Forró de Raiz Rio de Janeiro, que reunirá diversos nomes do meio, em prol do registro do ritmo como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Aliás, o compositor e poeta Marcus Lucenna, convidado do evento, realça: “Eu diria que forró não é um gênero musical, um estilo. É, na verdade, onde se pratica a música popular nordestina autêntica, como arrasta pé, coco, baião, xote, xaxado” , defende.

Lucilio Souza, maestro da Orquestra Sanfônica Balaio Nordeste, que também está na agenda do Fórum, ressalta que o debate sobre o resgate e a sustentabilidade do forró é de “suma importância”. “A discussão não vai nessas classificações de forró pé de serra e eletrônico, por exemplo. A questão são as matrizes do forró. Os artistas, as danças, os instrumentos... Não está sendo discutida uma classificação de ritmos”, sintetiza.

“Temos dois objetivos com esse reconhecimento pelo Iphan: virar patrimônio imaterial e resgatar e resguardar o forró”, explica Chambinho do Acordeon, um dos artistas que encabeçaram a campanha Devolva Meu São João e convidado do Fórum do Rio de Janeiro. “Ano passado, alguns sanfoneiros que não tocaram no São João tiveram de vender a sanfona para sobreviver”, lamenta o músico que interpretou Luiz Gonzaga no cinema.

Ele acredita que o forró se tornou um folclore, tendo ficado mais destinado para o mês de junho, quando ocorrem as celebrações de São João. “E, agora, o mês de junho tem essa infiltração de outros ritmos nas grandes festas”. Para Chambinho, o reconhecimento das matrizes do forró como bem imaterial irá legitimar o estilo, a despeito do que tem ocorrido nos últimos anos, com a ascensão dos estilos mais comerciais.

O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, criado no ano de 2000, viabiliza projetos de identificação, reconhecimento e salvaguarda dos bens reconhecidos. É o caso do maracatu Baque Solto, da roda de samba do Recôncavo Baiano, do caboclinho pernambucano, do cavalo-marinho, além de ofício das baianas de acarajé, tambor de crioula, samba rural paulista, frevo e outras expressões.

Diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Hermano Queiroz explica que existe um fluxo oficial desde o momento em que é aberto o pedido de registro, que pode demorar um tempo. “Todo bem cultural, quando é solicitado, não se tem bem claro que objeto é este. Só uma pesquisa bem ampla, com análise pela Câmara Setorial do Patrimônio Imaterial pode ajudar a identificar. Patrimônio é uma escolha, é uma seleção”, esmiuça.

Hermano explica que, atualmente, o Iphan está na fase de identificar que povos praticam o forró e em que locais isto acontece no Brasil. “Sabemos que isto é mais forte no Nordeste inteiro, além de Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília”, conta.

“No bem imaterial, o suporte de memória são as pessoas. O patrimônio imaterial é construído a partir das pessoas que o praticam”, define, explicando que é necessário haver um engajamento da comunidade que pede o reconhecimento, para a proteção, a perpetuação e a salvaguarda do bem.

FORRÓ PRA TODOS

O FOLE RONCOU

Livro narra a história do forró, desde suas raízes e principais nomes, como Luiz Gonzaga, Genival Lacerda e Marinês.

VIDA DO VIAJANTE

A mais completa biografia de Luiz Gonzaga foi escrita pela jornalista francesa Dominique Dreyfus. Inclui fotos e discografia.

DOMINGUINHOS

O mestre da sanfona tem sua vida contada através de imagens raras e encontros com Djavan, Gilberto Gil e outros.

O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS

A vida e a obra inesquecível de Humberto Teixeira, parceiro fiel de Luiz Gonzaga.

O REI DO RITMO

Rico resgate da obra de Jackson do Pandeiro. São 15 discos que revelam a modernidade ancestral do músico paraibano. 

 

(Colaborou Renato Abê e Marcos Sampaio) 

CAMILA HOLANDA