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7 dias em Entebbe. Trama forte, fraca execução

01:30 | 23/04/2018
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Desde que trocou os documentários pela ficção, em 2007, com Tropa de Elite, José Padilha, diretor brasileiro, entrou em uma pluralidade muito bem-vinda nos EUA. Ele continuou com os seus debates políticos, tanto que replicou na Netflix duas séries que fala de casos reais também. Depois de sua estreia internacional em 2014, com o mediano Robocop, Padilha retorna com 7 Dias em Entebbe.


O longa conta uma história, baseada em fatos, que se passa após a formação do Estado de Israel, onde um grupo de guerrilheiros alemães sequestra um avião entre Tel Aviv e Paris para deixar mais latente a Palestina na guerra. Depois disso, a aeronave sofre um pouso forçado em Uganda, na cidade de Entebbe, como já denuncia o título.


Mantendo a atenção em dois grupos formados por dois palestinos e dois alemães, a missão mantém o foco nos germânicos Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) e Wilfried Böse (Daniel Brühl), que desconhecem a tática do governo israelense. Desse modo, devido a insegurança na negociação, o governo decide reunir soldados para invasão do aeroporto, dando início à Operação Thunderbolt, que acarreta várias mortes.


É uma pena, infelizmente, que somente um personagem/ator cumpra o seu papel de criar algum tipo de proximidade. Wilfried Böse, vivido por Brühl, é um dos mais sinceros personagens da obra. Ele, inclusive, mostra todos os seus motivos para essa revolução terrorista.Quando ele explica os motivos para realizar tal operação, o filme ganha forças inesperadas, visto que o resto só decepciona.


Rosamund Pike, por exemplo, está completamente deslocada da realidade do filme. Sua atuação é extremamente problemática, beirando o tosco em atos que ela precisava demonstrar emoção. E é assim com todo o restante do elenco, inclusive com o talentoso Eddie Marsan que interpreta o político Shimon Peres no piloto automático.


O mesmo pode ser dito sobre a montagem do indicado ao Oscar Daniel Rezende. O montador trabalhou em Cidade de Deus, Tropa de Elite 1 e 2, A Árvore da Vida, Robocop e dirigiu Bingo: O Rei das Manhãs. Em Entebbe, Rezende apresenta um filme lento, com momentos que não acrescentam nada à trama e ainda exibe uma sincronia nas cenas que não faz o mínimo sentido.


Por outro lado, a música de Rodrigo Amarante e fotografia de Lula Carvalho se mostram eficazes na contação da história. Os planos do avião são belíssimos e a trilha tema dos personagens é dramática e garante um frescor aos atos.


No entanto, o maior problema se encontra nas cenas em que o diretor tenta criar um drama, com diálogos e situações que claramente não aconteceram. Como o filme foi inspirado em um fato, não há problemas em inserir algumas situações e omitir outras. O real problema é quando o diretor desenvolve os personagens de modo contraditório ao que o próprio filme apresenta.


7 dias em Entebbe tem bons momentos mas não se arrisca em sair do lugar comum. Na verdade, o que há de surpreendente no filme é que Padilha, como não é palestino ou israelense, não toma partido por nenhum dos lados e não transforma ninguém em vilão. Isso é interessante, principalmente vindo do diretor popular por assumir o seu lado político.



GABRIEL AMORA

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