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Ricardo Bacelar faz releitura de ritmos latinos no disco Sebastiana

Mirando no mercado internacional, Ricardo Bacelar lança Sebastiana, disco que faz uma releitura dos ritmos latinos ao lado de músicos de todas as Américas

01:30 | 13/03/2018
Foto Tatiana Fortes
Foto Tatiana Fortes

Mais de 20 anos separavam os músicos Ricardo Bacelar e Cesar Lemos. Eles se conheceram nos anos 1980, quando integravam as bandas Hanoi Hanoi e The Fevers, respectivamente. Naquela época, morando no Rio de Janeiro, Ricardo vivia um sonho roqueiro como tecladista de uma banda famosa e convidou o amigo para dividir um apartamento na Barrada Tijuca. Essa proximidade durou um ano, época em que eles se encontravam esporadicamente, entre um compromisso e outro.

O tempo passou, Cesar radicou-se em Miami e tornou-se um respeitado produtor. Ricardo voltou para Fortaleza, onde se divide entre os raros trabalhos como músico e a advocacia. Com a ajuda da internet, se reencontraram e puderam bolar a primeira parceria. Resultado de uma imersão em ritmos, timbres e histórias que ligam os países latino-americanos à África, o disco Sebastiana traz uma proposta ambiciosa de rever a música brasileira a partir de olhares múltiplos e estrangeiros.

A ideia de fazer o disco nasceu no ano passado, quando Bacelar completou 50 anos. Provocado pela esposa sobre como queria comemorar a data, ela mesmo deu a senha: “‘Faça a coisa que você mais gosta de fazer’. Então vou fazer um disco”, lembra o pianista que recebeu do amigo o conceito para seu terceiro trabalho. A ideia de Cesar foi convidar músicos latino-americanos para tocar música brasileira, cada um trazendo suas influências e sotaques. “Se eu fosse fazer só com músicos americanos, ficaria aquela coisa ‘samba samba samba’. E se fosse com músicos brasileiros a gente saberia como fica”, justifica Bacelar.

O resultado é um disco que não tem medo de soar sofisticado, nem nos momentos pop.

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“Tem uma petulância em fazer uma coisa como eu fiz. Porque se não fizer uma coisa bacana, fica esquisito. Vira um clone”, diz Ricardo detalhando sua pesquisa sobre instrumentos e ritmos no texto que acompanha o álbum. Ele explica como misturou o vallenato ao baião. Ou como incluiu um charango (instrumento da família do alaúde feito com casco de tatu) em um clássico do Clube da Esquina.

Apesar de ter personalidade própria, é difícil não comparar Sebastiana com o trabalho mais pop e recente de Sérgio Mendes. Ricardo não foge da comparação, mas não assume as mesmas ambições do carioca radicado nos EUA. “Essas químicas são complicadas. Você não pode partir de uma ideia ‘vamos fazer uma coisa radiofônica’. Pode não dar certo”, defende-se, contando que se jogou numa imersão profunda, junto com Cesar, para construir o álbum. “Pra chegar a isso aqui quebrei muito a cabeça. É um trabalho de pesquisa mesmo”.

Embora não espere um estouro no rádio como conseguiu Sérgio Mendes, Ricardo também apontou para o mercado internacional quando pensou seu novo disco. Além das plataformas de streaming, foram prensadas 5 mil cópias em CD e LP. Dessas, 1200 foram disponibilizadas para divulgação nos EUA, Japão, Europa e todo o Brasil. “Fiz esse disco para o mercado internacional por dois motivos. Primeiro, eu queria fazer um disco bonito, porque daqui a pouco não tem mais disco (físico). O segundo foi abrir espaços lá fora”, conta, adiantando as dificuldades da música instrumental. “No Brasil, é difícil música instrumental porque você conta nos dedos quem gosta. Eu quis realmente fazer uma coisa jogando a música brasileira para outros lugares, pra poder abrir espaço”.

Discografia

In Natura (2001)

Reunião de ideias variadas, que misturam jazz, clássico e MPB. Participações de Frejat, Kátia Freitas, Belchior e Hanoi-Hanoi.

 

Concerto para Moviola (2016)

Gravado ao vivo em Guaramiranga, o show reúne músicos cearenses num show de jazz fusion. No repertório, Egberto Gismonti, Tom Jobim e Pat Metheny e outros.

 

Faixa a faixa

O processo de concepção de Sebastiana foi longo e saboroso. Ricardo “teve que ouvir” obras inteiras de Chico Buarque, Tom Jobim e outros. Selecionou, cortou, viu o que poderia acrescentar, até chegar ao resultado que queria. A seguir, ele conta detalhes do disco:

 

1. A VOLTA DA ASA BRANCA

(Luiz Gonzaga/ Zé Dantas)

O baião dá lugar a uma levada pop misturada com o sangueo (ritmo venezuelano). O acordeom é do colombiano Channo Tierra. “Essas fusões são como uma brincadeira que você vai vendo se dá certo. Tem que ir testando”.

 

2. SUCO VERDE

(Ricardo Bacelar/ Cesar Lemos)

O título veio do suco que Cesar toma todos os dias. “Ele só falava nisso. De manhã tem uma receita que ele faz lá e só toma isso. Bota num sei que, raspa não sei que”, lembra Ricardo. Os timbres de teclados e o moog fazem lembrar vinhetas e propagandas de TV nos anos 1980.

3. NOTHING WILL BE AS IT WAS

(Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos/ Renee Vincent)

A versão de Nada Será como Antes é a faixa mais radiofônica do disco. Os vocais de Maye Osorio (EUA) dão ar soul jazz. “A gente queria uma coisa mais moderninha. Você vê que tem algo pop, um steel guitar (por Steve Hinson, EUA)”.

 

4. RIVER OF EMOTIONS

(Ricardo Bacelar)

A cada três faixas, Ricardo colocou um “respiro”, uma vinheta. Esta primeira sugere uma valsa, tem clima cinematográfico e remete a uma nostalgia. É dedicada à esposa Manoela Queiroz.

5. MENINA BAIANA

(Gilberto Gil)

No lugar do afoxé, entra um clima cubano garantido pelo percussionista Yoel del Sol. A bateria livre para improvisar é do venezuelano Anderson Quintero. “Não queria um disco que ficasse folclórico. A coisa latina vem pra ornamentar muito sutilmente”.

6. SOMEWHERE IN THE HILLS

(Tom Jobim/ Vinicius de Moraes/ Ray Gilbert)

Originalmente o samba batizado O Morro Não tem Vez, a versão puxa para o lounge e conta com a voz de Andrea Mangiamarchi (Venezuela). “Tirei o samba e botei rumba, pra fazer essa brincadeira. Tem um lado pop mesmo”.

 

7. PARTIDO ALTO

(Flora Purim/ Alex Malheiros/ José Roberto Bertrami)

Lançada pelo Azymuth, a faixa conta com um dueto de piano e trompete - de Jose Sibaja (Colômbia). “Ele não foi gravar. Fizemos uns Skype, mandei partituras, áudios. Ele gravou primeiro e deixou uns espaços pra eu entrar com o piano”.

8. PARTS OF ME

(Ricardo Bacelar)

A segunda vinheta de Sebastiana lembra uma canção de ninar e é dedicada às filhas do compositor, Sara e Maria. “Tem um VSTI, que é um sampler de orquestra”.

9. SAMBADOURO

(Ivan Lins/ Vitor Martins)

Lançada por Sérgio Mendes no álbum Brasileiro (1992), vencedor do Grammy de Melhor Álbum de World Music. “Está um pouco parecido com o Sérgio Mendes por conta dos vocais (de Rose Max, Brasil). Na minha, procurei fazer mais orgânica com percussão de mão (do cubano Yoel del Sol).

10. OH MANA DEIXA EU IR

(Heitor Villa-Lobos/ Milton Nascimento/ Teca Calazans)

“Nessa, eu me arrisquei a cantar. Queria fazer essa música, que eu gosto muito. Tive a ideia do arranjo cantando. Comecei a cantar e fui pensando nos acordes, mudei a harmonia pra transformar num jazz. Ela é muito pesada, meio sinfônica”.

11. SEBASTIANA

(Rosil Cavalcanti)

“Coloquei um sampler do Jackson (do Pandeiro) na abertura e transformei numa coisa fusion. É outra leitura da música nordestina. A melodia eu quis fazer exatamente igual, porque se não você perde o referencial. O baterista solto, improvisando. O clima ficou bom”.

12. DEPOIS DOS TEMPORAIS

(Ivan Lins/ Vitor Martins)

O arranjo em crescendo faz o clima da música. O destaque fica para o bandoneón de Gabriel Fernandez (Argentina). “É uma mistura de Ivan Lins com tango”.

13. VENTO DE MAIO

(Lô Borges/ Márcio Borges)

Versão que mais se aproxima do original, com o piano reproduzindo a melodia. Cesar Lemos canta o refrão num dueto com o flugelhorn de Jose Sibaja. As percussões e o charango são de Jesus “el viejo” Rodriguez (Peru).

14. SERNAMBETIBA, 1992

(Ricardo Bacelar/ Cesar Lemos)

O fox elegante foi batizado com o nome da rua em que os autores moraram em 1992. “É a rua da praia, num condomínio de apart hotel”. Cesar guia a melodia com um vocal bonito.

15. THE BEST YEARS

(Ricardo Bacelar)

Última vinheta, mais longa e mais nostálgica. “É uma trilha de filme. Tem uns espaços. Tinha uma fala pelo meio, mas não soou bem. Aí eu coloquei o Jackson (do Pandeiro, num sampler) pra fechar o disco”.

 

MARCOS SAMPAIO