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O POVO publica série inédita do infografista argentino El Norbi

Um dos jornalistas visuais mais inventivos da América Latina, o argentino El Norbi fala das peças que passa a publicar a partir de hoje no O POVO

01:30 | 14/03/2018

LIVRO Publicado no ano passado em Buenos Aires, Infocomics reúne grandes infográficos de El Nórbi
LIVRO Publicado no ano passado em Buenos Aires, Infocomics reúne grandes infográficos de El Nórbi
 

A partir de hoje, semanalmente, O POVO traz na página ETC uma série de dez infográficos do jornalista argentino Norberto Baruch B., um dos nomes fundamentais do jornalismo visual na América Latina. El Norbi, como é conhecido no meio artístico, destrincha temas e personagens da cultura pop em peças jornalísticas complexas, com dados, textos, fotografias e ilustrações.

 

Em entrevista ao Vida&Arte, El Norbi fala da necessidade de renovação do jornalismo e de como o jornalista deve estar atento às novas possibilidades de se contar uma história. Também explica o processo criativo por trás de suas peças, inéditas no Brasil até agora.

O POVO - Qual é sua formação?

Norberto Baruch B. - Estudei jornalismo. De fato, exerci durante toda minha vida o jornalismo escrito, trabalhei em todos os jornais de Buenos Aires. Mas sempre gostei do jornalismo visual, e por isso me meti no mundo da infografia.

OP - Você passou por grandes jornais argentinos. O que aprendeu dessa experiência com o jornalismo tradicional?

Norberto - Aprendi a complementar a palavra com o icônico e o visual.

OP - Você já declarou que a infografia é o elemento mais pop do jornalismo. Em um cenário de crise da comunicação, esse jornalismo pop pode ser encarado como estratégia para atrair novos leitores?

Norberto - Isso é evidente. Os jornais continuam com modelos clássicos e chatos. A infografia está aproximando um público que não está acostumado a ler jornais. É muito interessante a reação do público, como as crianças se aproximam. É uma ponte entre o adulto e a criança. Um pretexto para que os dois troquem suas experiências em um plano de igualdade. É empoderar a criança frente ao pai. O que eu faço é buscar o tradicional e misturá-lo com coisas das novas gerações.

OP - Quais os desafios para se contar uma boa história com a infografia?

Norberto - É preciso ter bem claro o que se quer contar. É necessário não cair na tentação de fazer o trabalho antes de apurar a informação. Deve-se saber que você pode contar uma história, e que essa história não precisa de uma nota jornalística que a acompanhe. Um infográfico não tem que ser um tapa-buraco, um elemento para quando não há fotografia. Tem que ser uma peça jornalística. É um novo gênero.

OP - Mas os jornais já enxergam a infografia dessa forma?

Norberto - Na Argentina, hoje, não estão fazendo muitos infográficos. O que os grandes jornais fazem é acompanhar a infografia com um texto. Sempre foi assim. O que tento é fazer com que a infografia se converta em uma peça única, peças de uma página inteira que funcionem como um todo. E isso não é um legado contra o jornalismo da pirâmide invertida, mas sim uma forma de entender como é o jornalismo que está chegando. A soberba do jornalista não deixa que ele entenda que o público pode entender tudo por um infográfico, mas te asseguro que as pessoas estão entendendo mais do que suspeitamos. Um infográfico é uma informação pura, cada elemento é um dado.

OP - O infografista desenha as informações de outro profissional ou ele é seu próprio investigador?

Norberto - Uma coisa é como está organizado um departamento de infografia tradicional, e outra é como deveria estar. Como sou jornalista, posso investigar e criar a peça. A maioria dos infografistas recebem as informações dadas pelos jornalistas, e geralmente são informações que o jornalista descarta porque não interessam. É importante que o infografista tenha a possibilidade de investigar, de não ficar apenas com o que sobra.

OP - Nesse cenário de con-sumo rápido da informação, a palavra vem perdendo importância para os novos formatos?

Norberto - Isso é a chave. A palavra está perdendo força porque cansa. Ouvi muitas vezes que as pessoas não leem, e isso é uma meia verdade. As pessoas não leem porque os jornalistas não se deram conta de que se deve trabalhar de outra forma. Eu sou professor de infografia em uma faculdade de jornalismo, e é um desafio explicar aos jornalistas — que têm uma formação totalmente da palavra —, que há outras formas de fazer jornalismo.

OP - Qual o cenário da infografia na América Latina?

Norberto - Muito interessante. Brasil e Peru têm uma identidade muito forte em relação a fazer infográficos além dos espaços limitados de acompanhar um texto. A Argentina ficou parada no tempo, como o Chile, à sombra do que se faz nos Estados Unidos. Tanto Argentina quanto Chile perderam a identidade que em algum momento havia no Cone Sul. Alejandro Malofiej (cartógrafo e infografista argentino) foi o tipo de profissional que mudou a história da infografia a partir da Guerra das Malvinas. Como um pioneiro da infografia moderna, há um prêmio que leva seu nome. Mas seu país parou no tempo. Eu gosto do que o Brasil está fazendo, de como vocês entenderam o suporte digital. E Peru tem uma identidade étnica muito forte que soube meter dentro da infografia, criando uma identidade única. Sua infografia é algo que realmente chama atenção, que tem a ver com seu passado, que se agarra ao passado para ver o futuro.

 

Veja o primeiro infográfico da série na página ETC da edição de hoje.

 

JáDER SANTANA