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Lágrimas de São Pedro chega à Caixa Cultural Fortaleza

A relação do sertanejo com a chuva inspira a obra Lágrimas de São Pedro, exposta a partir de amanhã na Caixa Cultural

01:30 | 19/03/2018
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Mistura de água, proteínas, gordura e sais minerais, a lágrima é, por si só, ambígua. Expressão de tristeza e alegria, tudo ao mesmo tempo, é nela que o sertanejo faz morada para pedir chuva, mais ainda para agradecer sua vinda. Vinícius S.A., nascido e criado em Salvador (BA), foi um dos que cresceram ouvindo os mais velhos referirem-se à chuva como “o choro de São Pedro”. “E é engraçado isso porque, apesar de São José ser o santo da chuva para todos nós, quem é o porteiro do céu é São Pedro, né? É ele quem manda a chuva”, percebe o artista que, a partir de amanhã, 20, desembarca em Fortaleza trazendo seu “choro particular”.


Da combinação entre fios de nylon presos ao teto com clipes e bulbos de lâmpadas incandescentes untados por óleo mineral e água surge a instalação Lágrimas de São Pedro. “Foi a primeira obra que eu apresentei como um artista profissional, com uma proposta pensada de projeto. Foi em 2005, em Feira de Santana, num salão regional de Artes Visuais. Só que foi uma coisa muito menor, com cerca de 500 lágrimas, e foi tudo muito artesanal. Depois de três anos, em 2008, fiz pela primeira vez uma grande exposição individual”, relembra Vinícius, que ao longo de sua trajetória arrematou alguns prêmios e já expôs, inclusive, fora do País.


“Fui para Frankfurt (Alemanha) em 2014 e, no mesmo ano, para Las Vegas (EUA), não para uma exposição, mas para uma feira de iluminação onde eu representei o Brasil no estande dos designers brasileiros”, explica, lembrando que foi durante uma ida à Chapada Diamantina, em seu próprio estado, que veio a inspiração para Lágrimas de São Pedro. E o resultado, até mesmo para ele, continua a surpreender. “Acredito que é uma exposição que arrebata mesmo. Já tive algumas experiências, por exemplo, em Salvador, quando fiz pela primeira vez uma individual lá com Lágrimas e tinham três senhoras rezando, de mãos dadas. Já tive depoimento de pessoas que iam todos os dias à exposição durante um mês”.


O impacto visual é também consequência de muita ciência. “Eu uso muito do cálculo, mas de uma forma que ele fica ali nos bastidores das obras. Porque todos os meus projetos são, de fato, projetos. Eu penso tudo antes: penso no volume, no diálogo com o público, no material, na quantidade, na técnica. E isso é uma coisa muito legal porque eu acho que é o uso da ciência para inverter a própria lógica da ciência. É utilizar-se dela pra fazer poesia e isso é muito bacana”, destaca. Os estudos na Universidade Federal da Bahia (UFBA) deram, assim, o arremate final.


“Como eu estudei Geofísica, as minhas montagens e os meus projetos são montanhas de cabeça para baixo. Eu faço os desenhos a partir de mapas topográficos. Então, quando eu penso a instalação, eu penso num volume, dentro da sala, como se fosse uma montanha. Só que de cabeça para baixo. Na exibição preparada para a Caixa Cultural Fortaleza serão 4.200 lágrimas e eu já trago todas nos tamanhos exatos e na quantidade exata que eu vou precisar”, revela o artista, que teve num quadro do francês Édouard Manet (1832-1883) o seu próprio arrebatamento.


A pesquisa de Vinícius, voltada para os tridimensionais, parte da própria experimentação do cotidiano. Desde a utilização de materiais efêmeros até a finalização, o artista tem na questão da memória uma constante. “Mas não essa memória que a gente está acostumado a pensar, ligada a coisas do passado. Não é isso. É uma coisa muito mais fenomenológica, muito mais ligada à experiência. Da vida mesmo, do cotidiano, das experimentações de materiais. Claro que me instiga muito a ideia da transparência, mas eu costumo dizer que eu não estou preso a uma questão exata do meu trabalho. E isso, de fato, me move: essa possibilidade de trabalhar com a experiência da vida”.


A passagem de Lágrimas de São Pedro por Fortaleza coincide com duas datas especiais: o Dia de São José, dedicado ao padroeiro do Ceará (lembrado a cada 19 de março), e o Dia Mundial da Água (22). E ela não encerra por aqui. “Eu adoro montá-la! É claro que está mais difícil de executar – porque não tem mais dessas lâmpadas – mas ela é uma obra aberta e eu quero, de alguma maneira, dialogar com outros espaços. Eu penso em ruínas, eu penso em outros espaços alternativos e também em ir mais para fora do País, levar para outros públicos”.

 

INSTALAÇÃO LÁGRIMAS DE SÃO PEDRO, DE VINÍCIUS S.A (BA)


Quando: abertura amanhã, 20, a partir das 19 horas (com a presença do artista), prosseguindo até 6 de maio

Onde: Caixa Cultural Fortaleza (av. Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema)

Horários de visitação: de terça-feira a sábado, das 10h às 20 horas ; e aos domingos, das 12h às 19 horas

Entrada franca / Acesso para pessoas com deficiência / Paraciclo no pátio interno

Informações: 3453 2770

 

TERESA MONTEIRO

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