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Kunumi MC usa o rap para falar da luta indígena

| MÚSICA | Jovem símbolo de protesto durante a Copa do Mundo 2014, Kunumi MC usa o rap como arma de luta pela demarcação de terras indígenas

01:30 | 12/03/2018

Como a maioria dos adolescentes de 16 anos, Wera Jeguaka Mirim não larga as redes sociais. O uso da tecnologia, porém, é recorrentemente motivo de desconfortos. “Muita gente me critica porque eu uso celular, Facebook, mas eles (não-indígenas) não percebem que já roubaram muita coisa da gente e o mínimo que a gente pode fazer é pegar o que os brancos criaram para usar e protestar, falar da nossa realidade”, bate o pé, negando que estar online signifique o abandono da sua ancestralidade.

Wera é o nome de batismo do rapper Kunumi MC, que, apesar da pouca idade, está prestes a lançar o segundo disco — programado para sair em 19 de abril próximo, Dia do Índio. Antes disso, outra novidade: um single gravado com o rapper Criolo, um dos expoentes do estilo no País. A música, Terra ar mar, faz parte de coletânea da produtora Matilha Cultural, importante espaço do gênero musical em São Paulo. Além disso, o primeiro CD do jovem aldeia de Krukutu, My Blood is Red, está disponível no Spotify desde o ano passado. O nome inglês, explica, revela o desejo de falar a muitos povos.

A “norte-americanização” do seu trabalho é outra questão que também atravessa a carreira do Kunumi. “Quando comecei a cantar rap, muitos indígenas, e também não-indígenas falaram mal, mas eu sempre penso que o rap surgiu como uma forma de defesa, para os negros se manifestarem através da música. É a mesma coisa”, rebate, destacando a relevância do ritmo para além da mercantilização.

Antes da música, Kunumi se apaixonou pelas letras. O pai, o poeta Olivio Jekupe, ajudou o menino a se descobrir autor. “Depois que eu aprendi a ler e escrever, eu estava escrevendo uma história no meu caderno e meu pai viu, disse que eu tinha talento e me incentivou a escrever outros contos”. Ele tem dois livros publicados, Contos dos curumins guaranis e Kunumi Guarani, vendidos pelo próprio MC na fanpage do Facebook.

Na trajetória do jovem indígena, um marco importante: a Copa do Mundo. Na cerimônia de abertura, ele e outras duas crianças (uma negra e outra branca) entraram no gramado segurando pombas brancas simbolizando a paz. Após soltar a ave, o então menino de 12 anos — que é fã de futebol — mostrou uma faixa com a frase “Demarcação já”, em referência à luta da classe indígena por territórios. Depois disso, Kunumi conseguiu certa visibilidade, sendo convidado a falar do assunto em palestras e representando a própria aldeia.

Àquela altura, admite que não tinha real noção da grandiosidade do tema. “Não entendia muito, mas foi ali que eu comecei a entrar no mundo dos direitos indígenas, fiquei mais atento”. Para o rapper, é importante falar e reafirmar as questões vividas nas tribos todos os dias. “Muita gente não sabe, mas os indígenas (no Brasil) vivem no sufoco, precisando de terra para plantar. Muitos (brasileiros) preferem não saber da nossa realidade. Continuam tendo preconceito”, reclama.

“O que me inspira mais não é falar de amor, romance, essas coisas. Quero falar da luta, da demarcação da terra”, aponta, celebrando o avanço que se dá quando os indígenas contam sua própria história. “Os brancos, quando escrevem sobre os índios, não é literatura nativa. A gente tem nossa própria visão”, conta.

Kunumi espera inspirar outros jovens, de outras tribos. “Cada povo tem sua questão e eu descobri que o rap é uma arma para nós. No Mato Grosso do Sul, tem a questão dos ruralistas”, convoca, citando como inspiração o grupo indígena Bro MC’s, que vem justamente dessa região. “A evolução que a gente está tentando fazer é importante para inspirar os jovens a batalhar através da arte. Os mais velhos já lutaram muito, agora nós, os jovens, somos a esperança”, resume.

 

EditorES: Cinthia Medeiros E MARCOS SAMPAIO

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RENATO ABÊ

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