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Jaildo Marinho visita tradições nordestinas em exposição

Jaildo Marinho, artista plástico pernambucano radicado em Paris, vem a Fortaleza apresentar coleção de obras inspiradas na tradição que sustenta nossa identidade nordestina

01:30 | 05/03/2018
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As 24 obras que integram Origens, exposição individual do artista plástico pernambucano radicado em Paris Jaildo Marinho, contam muito de sua trajetória enquanto criador, do diálogo que estabeleceu entre a tradição do local que o concebeu e a modernidade cosmopolita da cidade que escolheu para viver. São 11 esculturas, 11 quadros e 2 instalações que desenham uma ponte afetiva entre o Nordeste brasileiro e a Europa de todas as artes.


“Mesmo que a gente se transforme em um artista internacional, trabalhando basicamente na Europa, sempre fica a raiz. É minha base de tudo. Essa riqueza que temos no Nordeste de literatura, de música, tem uma influência muito grande em meu trabalho, sobretudo o diálogo que isso consegue manter com o lugar onde estou vivendo”, explica o artista, que está em Fortaleza para a abertura da exposição na Galeria Multiarte, a partir das 19h30min de amanhã, 6.

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O ponto alto da consumação desse diálogo intercontinental é FORTALEZA, instalação de madeira e aço que ocupa mais de cinco metros de uma das paredes da galeria. Composta por agulhas gigantes fincadas à estrutura do prédio, a obra traduz o interesse de Jaildo pelo que produzem as mãos do Ceará. “Quis utilizar a agulha, que é um instrumento ancestral, utilizado de maneira manual, para representar nosso artesanato, nossa renda. É um conceito novo, quis valorizar o serviço das mãos, essa marca da Cidade”, explica o artista.


Feitas com madeiras de diversas regiões do Brasil, as 56 agulhas de Jaildo subvertem a inércia, parecendo vivas, como se estivessem trabalhando na peça de crochê azul confeccionada especialmente por uma artesã do Estado. A instalação fala do processo e apresenta seu produto final, como um ciclo que se faz perene.


“Me interessa a quase não necessidade do pensamento, o gesto sistemático, o trabalho com a técnica. Isso me deixou curioso. A mão da artesã trabalha sozinha, como se aquele fosse um conhecimento ancestral, como um coração que bate independente do pensamento”, explica Jaildo sobre seu encantamento com a ação das agulhas. “A humanidade teve a necessidade de se costurar, como uma forma de se proteger”, completa.

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O mármore de Carrara, comuna italiana na região da Toscana, onde o artista tem um sítio, também é protagonista de sua produção. A escultura JANGADA, representação abstrata de nossa tão particular embarcação, mistura acrílica e mármore para criar uma vela de quase um metro fincada a uma estrutura colorida. Em Ensemble 1, Jaildo utiliza os mesmos elementos para resgatar nossos dedais, pontuados por cavidades igualmente coloridas.


“Esta exposição mostra que em busca de suas origens nordestinas, o artista resgata, de forma poética, as suas origens”, explica Max Perlingeiro, curador da exposição e galerista da Multiarte. Sobre o artista, cita sua capacidade de transitar entre os aspectos terrenos e metafísicos da existência: “Para Jaildo, o vazio existe como uma imposição do espaço. O que não está, também está entre nós. O inexistente e o inabitável fazem parte da razão e da contabilidade do mundo”.


A exposição, que tem visitação aberta até o dia 13 de abril, vem complementar e subverter a última coleção de Jaildo, exposta no Brasil em 2017, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Na ocasião, o artista expôs obras que comparavam a finitude da vida humana à perenidade do mundo mineral. Como nos leva a crer por sua nova proposta, a resposta para a mortalidade pode estar no retorno às origens.


SERVIÇO


Exposição Origens, de Jaildo Marinho

Data: abertura amanhã, 6, às 19h30min; visitação de 7 de março a 13 de abril, de segunda a sexta, das 10 às 19 horas

Local: Galeria Multiarte (rua Barbosa de Freitas, 1727 - Aldeota)

Telefone: 3261 7724

JÁDER SANTANA

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