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Inspiração em clássicos mostram muitas camadas das narrativas

01:30 | 19/03/2018

É preciso entender a teledramaturgia, assim como a arte de uma maneira geral, como um território de muitas camadas. Cada novela, cada série, traz em si múltiplas possibilidades de leitura, a partir do repertório de cada espectador. Obviamente, há uma história guia a ser contada, que deve ser assimilada com facilidade, independente do nível dos conhecimentos estéticos e históricos de quem a assiste. Mas há uma grande habilidade dos narradores em enriquecer essa trama com referências e citações que possibilitem experiências outras para os consumidores destes produtos culturais.


Cito quatro casos distintos, todos de novelas exibidas pela TV Globo, para exemplificar como essas camadas de leitura levam a experiências diversas para o espectador. No capítulos finais de Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, levados ao ar em 2016, o coronel Afrânio de Sá Ribeiro (Antônio Fagundes) busca desesperadamente por seu filho Martin. Depois de quase se afogar, enfrenta seus demônios íntimos personificados em geradores eólicos. Ao público comum, a história, bem contada, encerra-se aí. Aos conhecedores de literatura, é óbvia a citação ao clássico Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Esta novela, aliás, foi um primor de referências literárias, que iam do universo de Gabriel García Márquez a Lorca.


Também bebeu no universo literário João Emanuel Carneiro nos capítulos iniciais de Avenida Brasil (2012). A história das crianças Rita e Batata abandonados num lixão é uma referência clara ao clássico João e Maria, dos irmãos Grimm. Só que com a floresta ressimbolizada no grande depósito de lixo.


Já Walcyr Carrasco homenageou o clássico do cinema Morte em Veneza, de Luchino Visconti, no capítulo final de Amor à Vida. Até a trilha sonora usada na cena final da novela é a mesma da cena final do filme (o Adagietto, da Quinta Sinfonia de Mahler).


Ainda no universo cinematográfico, Aguinaldo Silva foi mais radical na cena final da vilã Silvia (Alinne Moraes) em Duas Caras (2008). Ao descer da escada de sua mansão, em pleno surto psicótico, Silvia olha para a câmera/espectador e diz: “Estou pronta para meu close, Mister Maia” e segue, em camisa de força para a clínica psiquiátrica.


O que a olhos desavisados soa apenas como sandice de uma surtada (e que faz todo sentido na cena) é uma citação, ipsis litteris, à cena final do clássico Crepúsculo dos Deuses. No filme, dirigido por Billy Wilder em 1950, Norma Desmond (Gloria Swanson), uma atriz decadente e em surto psiquiátrico, desce a escada de sua mansão, a caminho da prisão, olha para a câmera/espectador e diz “Mister DeMille, I’m ready for my closeup”. Em seu delírio ela conversa com o cineasta Cecil B. DeMille, um dos mais importantes diretores da era de ouro de Hollywood. Já a Silvia “conversa” com Wolf Maia, diretor geral da novela e um dos mais importantes da TV, à época.


Os quatro casos mostram a multiplicidade de leituras que estas obras permitem. Quem não tem repertório para identificar as referências não perde conteúdo da trama. Os que o têm, ganham novas possibilidades de aproveitar a história.

Émerson Maranhão

 

GABRIELLE ZARANZA

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