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Festival leva performance para diversos pontos da Cidade

Com ações em espaços como estações de metrô e praças, a primeira edição do Imaginários Urbanos convida público a repensar o modo de olhar para a Cidade

01:30 | 19/03/2018
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Num cenário onde a violência urbana se impõe corriqueira, os passos de quem anda pela rua estão sempre apressados. O caminhar dá espaço para a fuga. Praça? de preferência a de alimentação do shopping mais próximo. Na contramão desse terror paralisante que é fomentado a cada nova chacina, surge o Imaginários Urbanos - Festival de Performance Urbana do Ceará. De hoje até o próximo dia 25, artistas farão ações Cidade afora, convidando o público a frear os passos.


“As cidades viraram espaço de passagem, o medo é que ocupa. Assim com as facções, os negócios imobiliários. A gente só vai ter a cidade para a gente de novo quando começarmos a ser e estar nela”, aponta a artista e pesquisadora Marcelle Louzada, uma das debatedoras convidadas para participar do evento.


Para a doutoranda em Educação da Universidade Estadual de Campinas, a arte acaba convidando o público a olhar o espaço público com mais atenção. “Eu gosto da performance na cidade porque ela deixa de ser um espetáculo, algo somente para gente considerada culta. Ela passa a ser do povo. Não é uma relação vertical, é horizontal”, defende.

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O festival é realizado pelo Grupo EmFoco em parceria com a Sofá Amarelo Produções e a programação conta com trabalhos de 14 artistas de Fortaleza, do Interior e de outros estados do nordeste. As ações vão ocupar desde estações do metrô e terminais de ônibus até praças, ruas e avenidas. “Nós e a cidade somos um corpo que anda junto. A cidade em que eu ando me faz quem eu sou”, reflete Eduardo Bruno, curador do evento. O pesquisador detalha que o objetivo primeiro do Imaginários é investigar o lugar do corpo no espaço urbano e a sua relação entre o público e o privado por meio de práticas performativas.


Eduardo pondera que, ao longo da história, a arte foi sendo sempre apartada do conceito de cidade e que, festivais como esse acabam quebrando um pouco essa distância. “O conceito de cidade reflete um conceito capitalista. Em consequência disso, não é um cidade pensada para habitar, mas para produzir. A população acaba não tendo o poder de uso, porque o uso é pensado para a troca de mercadorias”, elabora.


“A função da arte, nesse contexto, acaba sendo de gerar aproximação, partindo de um ponto sensível, estético. Enquanto o espaço é pensado pelo capitalismo para ser funcional, a performance vem pensando a ligação do sujeito com esse não-lugar. A arte propõe transformar a cidade em local de vida, de permanência”, aponta Eduardo, ressaltando ainda o poder da arte de dar visibilidade. “A performance mostra também as assimetrias, as invisibilizações da cidade e faz pensar por que alguns corpos são bem recebidos na cidade e outros não. Alguns gêneros têm espaço e outros não. Algumas sexualidades sim e outras não.


As ações formativas e mesas de debate também terão acesso gratuito e vão acontecer na Escola Porto Iracema das Artes. Entre os dias 20 e 23 de março, acontecerá a residência artística “Corpo, Gênero e Cidade”, mediada por Bartira Dias (CE), sempre das 17h30min às 21h30min. Ferdinando Martins (SP) vai mediar um workshop sobre a “Produção do Conhecimento sobre a performatividade dos corpos abjetos e desviantes nas artes cênicas”, das 14h30min às 17h30min. No sábado, fechando a programação de debates e reflexões, Patti Bertucci e Angela Soares, vão discutir “As Relações Possíveis Entre Arte e Cidade”, a partir das 10 horas. À tarde, às 14h30min, Marcelle Louzada e Kaciano Gadelha conversam sobre “O Artista no Espaço Urbano”.


I Festival Imaginários Urbanos

Quando: de 19 a 25/3

Onde: espaços públicos da Cidade

Info: facebook.com/Imaginariosurbanos

 

PROGRAMAÇÃO


SEGUNDA-FEIRA (19/3)


9h - Fôlego (Alysson Lemos). Praça da Igreja Matriz em Messejana


16h - Costurando na Rua (Silvia Moura). Av Beira Mar.


TERÇA-FEIRA (20/3)


11h30min - Tálamo (Kakaw Alves). Catedral Metropolitana de Fortaleza


14h - Pela Força da Linha (As Nega). Terminal da Parangaba


Indefinido - Um Traço Visual do Tempo (Letícia Barbosa). Itinerante


QUARTA-FEIRA (21/3)


9h - Tiro no Escuro (Neto CIA de Dança). Metrô Benfica-Maracanaú


16h - VNI (Wellington Gadelha). Av Dom Luís


Indefinido - Um Traço Visual do Tempo (Letícia Barbosa). Itinerante


QUINTA-FEIRA (22/3)


10h - Vândala, Marginal e Mulher – Travessias Batom (Maruska Ribeiro). Centro


13h - (Des)ordem e re(pro)gresso (Lívio do Sertão). Praça do Ferreira


SEXTA-FEIRA (23/3)


10h - Terrorismo de Gênero (Thomas e Marcio Peixoto). Benfica


13h - Pegando o Sol com a Peneira (Waldírio Castro). Praia do Futuro


SÁBADO (24/3)


21h30min - Price World ou Sociedade a Preço de Banana (Em Foco Grupo de Teatro). Porto Iracema


DOMINGO (25/3)


15h - A Morte da Bonitinha (Natália Coehl e Marcelle Louzada). Poço da Draga


Corpo Gênero e Cidade (Local e horário a definir durante residência)


O POVO ONLINE

Durante o festival, as pesquisadoras Pati Bertucci e Marcelle Louzada escreverão textos exclusivos para o Vida&Arte. Leia em

opovo.com.br/vidaearte

 

RENATO ABÊ

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